1/0 é indefinido. Não é um resultado totalmente reconhecido pela matemática, não somente devido ao fato de que qualquer coisa dividida por zero deve ser "infinito", algo que nem sequer é um número, mas também porque é um número simultaneamente positivo e negativo. É um paradoxo. Uma impossibilidade. Mas, assim como hipercubos e buracos negros, ele existe. (Toupeira Profissional, sobre 1/0)
1/0 é também o nome de uma webtira1 em 1000 episódios que conta a trajetória de um mundo, desde o início até seu fim. Tudo se inicia, claro, com a luz, e termina com a ausência dela. No meio disso tudo, os personagens constróem suas vidas, exploram a física improvisada de seu mundo e interagem com Tailsteak, o criador e narrador da história.
Um parêntese, porém: o conceito da Quarta Parede2 é regularmente destruído no universo das webtiras. O que demonstra mais fortemente a falta desta parede é a capacidade dos personagens de, de uma hora para a outra, tomarem consciência de suas vidas como personagens, mesmo que apenas temporariamente. Normalmente isso é usado com fins humorísticos, e 1/0 faz o que pouquíssimas outras webtiras ousaram fazer: tentam levar a coisa a sério.
A história começa de forma bastante lúdica. Um personagem admitidamente roubado de outra tira, um enredo sem nenhum sentido... até que, depois de três "rotinas de Éden" – que consistem, basicamente, em arrancar uma parte do corpo do personagem e criar um outro –, o mundo começa a se tornar mais consistente e ganha até mesmo cenário. E os personagens se multiplicam.
As consequências da quarta parede ausente são exploradas a pontos nunca antes vistos, incluso uma alegoria ao ateísmo que – como o próprio autor reconhece – não faz sentido nesse contexto. Mas divago. O grande mérito da história é justamente esta abordagem "responsável" de um recurso normalmente usado da forma menos séria possível. Trata-se, então, de um exercício literário de fundo filosófico profundo: o que ocorre quando a obra tem total consciência de seu criador?
1/0 foi lida por nós em dois dias, no que eu chamaria de "varredura de arquivo ultra-rápida". Embora não haja objetivo, o enredo é realmente de ótima qualidade. Talvez o único ponto fraco tenha sido justamente o limite, que embora tenha sido um interessante elemento da grande alegoria que é a história, causou também um dos poucos deus ex machina da história, quando um "capítulo" que teria tudo para ser um foco de tensão e suspense na história foi resolvido em poucas tiras de forma menos que satistfatória, devido à proximidade do fim.
Mas, novamente, divagações. A idéia é muito original – pudera, o final data de 2003, quando nem tantas webtiras estavam online – e Tailsteak consegue com sucesso produzir uma história consistente, embora, sobretudo no início, a consistência seja costurada com pontos largos. E leve-se em conta que a publicação se deu em regime diário, do primeiro ao último dia. Não é simples, sobretudo levando-se em conta os imprevistos inevitáveis do percurso. Trata-se de um esforço louvável.
E, claro, uma experiência pós-moderna inspiradora. Muito inspiradora, aliás...
1 Webcomic, para os menos afeitos a traduções neologísticas
2 Não ocupemos demais o texto: trata-se de uma imaginária parede no palco de um teatro, que separa o público dos atores.

Isaias Malta
12/12/2008 19:44
Primeiramente vamos ao título, o do pós-modernismo e filosofia. Por ora, ele é mais chamativo do que eficiente, mas avançemos no negócio, para que se torne interessante. Vejamos, se as webtiras cumprem os mandamentos de um suposto pós-modernismo:
Link para este comentário | Responder-em seu aspecto negativo, a pós-modernidade é a fragmentação absurda da razão vista sob a ótica grega (negativo porque é resultante de uma negação);
- em seu aspecto positivo é a morte do sujeito. Ora, o sujeito moderno é a base do modernismo. Ele é o centro antropomórfico do universo, ele é a medida de todas as coisas. Findo este sujeito onipotente, termina a idade moderna. Então, qualifico este aspecto de positivo porque é resultante de uma afirmação.
Onde onde se localiza o embasamento pós-modernista do 1/0? Talvez no aspecto paradoxal, bizarro e impossível, ou, quem sabe, ele encena a morte do sujeito moderno salvador do mundo?
Certamente que não li totalmente as webtiras e não farei, assim, me restrinjo à semântica das divagações korsisticas, com as quais me aprazo e me fornecem o combustível necessário para empreender o diabo de ponte entre a filosofia implícita nas tiras e as elocubrações toperísticas.
Agora falando sério!
Bruno, tu és realmente o cara! Este post é um verdadeiro desafio heurístico. Se continuas a fazer isto, levo dois dias para ler os teus artigos. E quem disse que a Internet se resume às curiosidades e a assuntos flanantes? Meu, que negócio alto nível, ao arbitrar o título utilizado um esquema em oxímoro, delegaste ao leitor a tarefa de (re)estabelecer, (re)criar as relações omitidas. Propositalmente? Só o Korso tem disposições intelectuais de aclarar.
Korso Asclepius (Toupeira Artista)
12/12/2008 21:12
Confirmando nossas apostas internas, nosso primeiro comentário vem então de Isaias Malta. Perfeito. Começo a resposta.
Link para este comentário | ResponderTrata-se de uma obra filosófica no puro sentido em que incentiva o pensamento a respeito de uma questão existencial, sendo esta, no caso, a proposta inicial de como funcionaria um mundo ficcional no qual autor e criação se interagem de forma quase cúmplice. Há muito subtexto, mas esse é, provavelmente, o principal.
O aspecto pós-moderno mais marcante de 1/0(não o número, mas a tira) é a metaficção. A ficção discorre sobre a ficção, e em algum ponto perto da tira 200 e alguma coisa, um dos personagens cria também sua própria tira, de curta duração. Mas serve como exemplo.
Quanto ao título, lavo minhas próprias mãos(patas?). Se ninguém disse, eu o digo: todo autor deve conviver eternamente com os acidentes poéticos que causa. Este é só mais um deles.
PS.: Acho que você está batendo recordes em termos de extensão de comentário. Acho que merece parabéns...
PPS.:Note-se também que esta será uma das poucas resenhas de webtiras de minha autoria. É difícil achar esse tipo de profundidade pela rede afora...