Resumo dos fatos: erro no site da loja Fnac, milhares de vendas de laptops e TVs de plasma por míseros 9,90. A loja descobriu o erro, notificou a galera e cancelou as vendas. Agora tem gente que quer receber seu novo e baratíssimo brinquedo tecnológico. Pronto, resumido o caso, vamos aos comentários.

Antes de mais nada: isso já aconteceu antes. Algumas várias vezes. Casos semelhantes ocorreram no passado com notebooks da Makro, TVs de plasma da Best Mix e computadores da Shoptime. Todos eles me demonstram a mesma coisa: que temos o maldito país que merecemos.

Imagine-se nesta situação: você está casualmente pesquisando preços de, digamos, um carro. Aí você se depara com um preço absurdamente baixo de, digamos... 100 reais. Isso. Por conta de um erro de digitação absurdo, um estagiário qualquer vai e esquece dois zeros no preço do carro. Pergunta: o que você faria?
a) Imagina que, talvez, esteja havendo alguma promoção que você não sabe e tenta comprar só pra saber, mas se conforma quando a compra obviamente é cancelada;
b) Percebe que houve algo muito errado, porque um carro barato desse jeito é impossível, e desconsidera o anúncio ou liga para a loja para avisá-los do absurdo;
c) Percebe que houve um erro, faz a compra, espera que ela seja cancelada depois para ir na justiça e exigir o seu carro ultra-mega-barato, e reclama indignado que a loja agiu de má-fé.

Se você respondeu "a", você é um idiota, mas pelo menos um idiota inofensivo. Se você respondeu "b" você tem bom senso. Gosto disso. Se você respondeu "c", parabéns, você pertence ao grupo de idiotas safados que só estavam esperando alguma oportunidade para se dar bem às custas alheias que eu tanto odeio.

Eu estou falando sério, tem gente que quer receber os televisores e computadores por preços absurdamente baratos. Na cabeça dessas pessoas, mesmo que a loja tenha se desculpado e cancelado as vendas – e, portanto, não estejam recebendo o dinheiro das compras absurdas –, ela agiu de má-fé, pois... pois eu não sei. Eu não entendi como a loja está se beneficiando por perder milhares de vendas e ter a credibilidade de seu sistema de catálogo on-line questionada. Eu siplesmente não sei. Suponho quer seja a paranóia normal do povo, que acredita que as "grandes corporações" só querem piorar a sua situação.

Ainda por cima, pelo menos o Fugita está apoiando essa linha. Admiro ele, eu não conseguiria, falta-me cara-de-pau e inocência para não acreditar que o caboclo que quer comprar uma porcaria de uma televisão de tela plana por menos de 10 reais não está obviamente tentando tirar vantagem da situação. Ainda não consigo ver o que a loja ganha tendo que cancelar milhares de pedidos, exceto que eles não terão milhares de reais de prejuízo, o que é o mínimo que se possa esperar de uma loja. Por outro lado, efetuar uma operação claramente absurda e depois alegar má-fé e fraude é exatamente o que eu qualifico como má-fé, canalhice e falta de noção.

Um último adendo à questão:

Art. 138. São anuláveis os negócios jurídicos, quando as declarações de vontade emanarem de erro substancial que poderia ser percebido por pessoa de diligência normal, em face das circunstâncias do negócio.

...em outras palavras, o Código Civil é claro: você só pode ganhar seu Macbook por 9,90 se você for clinicamente retardado.

Enfim, velha história: décadas de cultura glorificando a malandragem, se aproveitando de qualquer oportunidade para tomar vantagem sobre outrem e, em suma, criando o que chamamos de "Lei de Gérson", nos leva a essa situação em que a honestidade é considerada uma característica divina e/ou passível de chacota. Em pelo menos um desses casos citados acima, as pessoas não tiveram nem o pudor de esconder seu conhecimento da situação absurda, inclusive incitando mais pessoas a participar. Na boa, se você vai ser um pilantra, pelo menos tente não parecer um.

Mas o pior é que isso não vai mudar. Daqui a algum tempo, outro estagiário sobrinho do dono vai cometer um erro, ou um sistema vai errar um código de produto, e mais pessoas vão esfregar suas mãos sujas de antecipação por outra oportunidade de se dar bem às custas de outrem.

E eu só vou poder concordar que o pior do Brasil, realmente, é o brasileiro.