Como correspondente artístico, me vejo no dever de escrever sobre o assunto, sendo o assunto a definição do que, afinal, é arte e o que não é. Mas aviso que a coisa é mais complexa do que parece. Mais do que isso, sim...
Primeiro, não existe um consenso do que exatamente é arte. Não falo dos "absurdos" e "impropérios" de considerar um monte de entulho ou fotografias de pombos em toalhas de plástico como arte, coisa atribuída à "arte moderna". Van Gogh tinha problemas para vender seus quadros, todo mundo sabe. Hoje é um ícone. Acontece.
O problema, amigos está na definição de arte. Do Wikcionário:
arte
1. forma de expressão subjetiva do ser humano.
2. produção do artista.
Em outras palavras, arte é subjetivo. Arte é própria. Arte não é algo que se define com precisão. E agora, José?
O resumo da ópera é que arte é questão de gosto. Eu, pessoalmente, adoro Noite Estrelada, mas nada pode fazer com que você tenha a mesma paixão de achar que é um monumento da pintura. Da mesma forma, eu odeio o funk carioca, mas aparentemente a Regina Casé não concorda...
Podemos confiar em autoridades, mas se há algo dito por Carl Sagan com o qual eu deva concordar é que autoridades erram. E podem estar incrivelmente erradas. Embora ainda não tenha achado relatos convincentes do fato, críticos de arte foram enganados e elogiaram quadros pintados por um chimpanzé. O que esta anedota confirma, entrementes, é que até chimpanzés podem ser artistas.
Mas, claro, não haveria sentido em iniciar tal discussão se eu não estivesse disposto a dar a minha opinião sincera. Eu, então, acredito que não há mérito em repudiar algo como não sendo arte. Deve-se, ao invés, repudiar algo por ser má arte, arte desagradável ou arte horrível. O que estes três termos querem dizer é que embora algo seja arte, é hediondo e você odeia, em termos suaves.
Muitas pessoas parecem(ou simplesmente afirmam) achar que arte é "aquilo que não consegue fazer". Potencialmente, qualquer um pode pintar. Qualquer um pode desenhar. Qualquer um pode esculpir. Qualquer um pode andar. Mas nem todos o fazem. Desvalorizar algo só porque você tem a faculdade de fazê-lo é um impropério muito conhecido. É como o sujeito que só dá valor a andar depois que perde as próprias pernas. E, usando um exemplo empírico, é como o irmão do rapaz, que não acha abajures de lava legais porque ele sabe como são feitos...
Enfim, sem mais enrolação, você me pergunta: "o que é boa arte, então, Korso?"
Tudo aquilo que me agrada. Tudo aquilo que tem um efeito interessante, que prende a vista. Que prende minha atenção por ser agradável. E, principalmente, tudo aquilo que é feito com objetivo de ser mais do que um objeto de ornamentação ou de uso. A extrapolação da utilidade.
Mas claro, você tem o direito de discordar. E eu não devo tentar te dissuadir do contrário. Cada um é cada um, e arte é arte...

isaias malta
10/05/2008 10:09
Faz muito tempo que arte não é arte. Acho que depois que a humanidade entrou na era industrial, arte é produto que é consumo. O artista expressa a si mesmo ou procura um lugar ao sol na querência dos consumidores?Foi-se o tempo do solitário pé-rapado pintor morador de sótão que pintava em troca da satisfação de pequenas necessidades carnais. Assim como a ciência morreu na concepção iluminista, a arte morreu em sua conceituação autônoma. Se um vira-lata em estado terminal amarrado por uma cordinha for imagem consumível: é arte comprada e vendida pelas agências de notícias internacionais.Parece um negócio? Sim, a civilização industrial da replicação em massa com seu toque de Midas transforma qualquer coisa em produto... e negócio.Um artigo meu que aborda a arte como artigo de esteira de montagem está em: http://blogpaedia.blogspot.com/2008/04/de-que-modo-arte-contempornea-se.htmlque ecoa de certa forma o bom ótimo do Korso. Nota: vi presencialmente os quadros mostrados do Mondrian e do Van Gogh. São nitroglicerina pura!
Link para este comentário | ResponderKorso Asclepius(Toupeira Artista)
10/05/2008 12:01
Nunca acreditei na morte da arte como puro conceito de transformação da impressão em matéria(sim, sou levemente impressionista, embora tenha meu pé mais voltado para o surrealismo).
Mas, principalmente, não se pode negar, de forma alguma, que o conceito de arte é inteiramente subjetivo, quase que recursivo.
PS.: Inveja, nunca tive a oportunidade de ver esses quadros ao vivo. Aliás, nenhum quadro imensamente famoso, assim...
Link para este comentário | ResponderMaristela Guedes(Mãe)
11/06/2008 14:27
Sujestão de leitura:
Link para este comentário | ResponderArgumentação sobre a morte da arte, do Ferreira Gullar, que além de ótimo poeta, é umexcelente crítico de arte.
Bruno Guedes(Toupeira Profissional)
11/06/2008 14:37
Eu não me lembro de ter escrito esse comentário... teria sido você, mãe?
Link para este comentário | Responderisaias malta
10/05/2008 10:11
O maior desastre da blogolândia é esta invenção de vocês de formatação em quebra de linha dupla. Quando vou me lembrar de uma coisa dessas?
Link para este comentário | ResponderKorso Asclepius(Toupeira Artista)
10/05/2008 11:57
Okay, vou pedir ao garoto para resolver isso, então. Pelo jeito não era tão boa idéia quanto parecia...
Link para este comentário | ResponderBruno Guedes(Toupeira Profissional)
10/05/2008 12:26
Eu não sei quanto a você, mas eu entendo meu texto bem melho numa caixa de texto sem nenhuma formatação quando os parágrafos têm duas linhas de separação.
Link para este comentário | ResponderMas vá lá, já está resolvido esse incômodo. Aprecie com moderação. ;)
Moura
31/05/2008 14:07
Meu caro, Korso, é verdade que arte é arte, isto também nem discuto (discutir: arte, religião e futebol) é uma grande perda de tempo, pois cada um terá seu argumento para defender seu peixe.
Link para este comentário | ResponderSó não consigo compreender, como alguém é capaz de pagar milhões de dólares, real, entre outras moedas, numa arte subjetiva.
Parabéns! pelo post.
Moura
31/05/2008 14:09
aliás, em "defender seu peixe", quis dizer defender o São Paulo "Tricolor Paulista".
Link para este comentário | ResponderAbraços de um tricolor.
Esta Pessoa
23/06/2008 18:35
Korso,
Link para este comentário | ResponderVocê vai adorar o livro que sua mãe indicou. Ferreira Gullar foi bárbaro para criticar esta arte contemporânea e resgatou os conceitos básicos da arte pura. Vale a pena a leitura.