Este é nosso único texto, talvez, que recebeu qualquer tipo de revisão. Contando esta, deve ser a quinta vez que este artigo é reescrito. Sinto que as palavras têm que ser certas, os significados não podem ser ambíguos, e também há o risto de que gente que eu conheço e talvez admiro sinta que a carapuça serve, e a coisa não é bem por aí. Meu discurso é rabugento, como de costume, mas o objetivo não é insultar. É aconselhar.

Comecemos pela noção de que tudo que é publicado está passível de críticas. O único lugar seguro para nossas obras intocáveis é nossa cabeça. A partir do momento que as deixamos livres, damos ao leitor o direito de replicar. A questão toda é que existem meios mais passíveis de réplica do que outros. A internet, então, é um meio de réplica fácil. A tal Web 2.0, ainda por cima, praticamente funciona baseada na réplica. E o autor tem que estar preparado para isso. É importante entender que não se é intocável.

E daí partimos para nossa próxima definição: um crítico é, essencialmente, alguém que tem uma opinião. A natureza da opinião não importa aqui, esta é uma armadilha comum. O crítico não é só aquele que "critica", ou seja, que aponta defeitos e reclama. Existem críticas de várias formas, e o mais importante não é a negatividade ou positividade da opinião, mas a validade. E validade não está necessariamente ligada à suavidade, eloquência ou bondade da crítica.

Em termos rápidos, não é uma questão de forma, mas de conteúdo.

Digamos que você escreva um artigo de dez longos parágrafos noticiando um buraco enorme que tem na sua rua. Alguém poderia dizer que você é muito prolixo. Outro poderia dizer que talvez você não precise de tantos parágrafos, alguns poderiam ser resumidos com outros, outros poderiam ser eliminados, a não ser talvez que você faça questão, afinal o texto nem é tão ruim por causa disso. Outro poderá dizer que, caramba, como você escreve pra burro, vai encher linguiça assim no raio que o parta! São três formas bem diferentes de dizer a mesma coisa: você gasta mais palavras do que precisa pra se expressar. Você está sendo prolixo. Este é o núcleo da mensagem, e é isto que determina se a crítica é válida ou não. Mas até aqui acho que o assunto está bem simples.

A coisa complica é agora, quando eu vou tentar te provar que elogios são nocivos, e insultos são bons.

Não que isto seja absoluto, e todo elogio é sempre nocivo e você deva se cercar de detratores. Mas como disse... alguém, uma das piores coisas que você pode fazer a um artista é dizer que ele é perfeito. Um artista elogiado em demasia relaxa, pára de se aprimorar e resolve parar pra descansar em um degrau, mas se esquece de continuar subindo. Para quê arriscar, afinal, se o terreno aqui é seguro? Elogios são perigosos. Reconheça-os, agradeça-os e não deixe que subam demais à sua cabeça. E nesse ponto, insultos ajudam.

Insultos podem ser vazios ou cheios de críticas válidas. Podem ser cruéis ou sinceros e temerosos. Mas é certo que se alguém resolve simplesmente ignorá-los e se cercar de elogios, está fadado à estagnação. É preciso estar atento aos detratores e extrair as críticas úteis. Não é fácil, mas é recompensador. Obviamente, existem aqueles que não querem ajudar. Seus insultos são vazios e não têm nenhuma utilidade. Existem aqueles que não sabem do que estão falando, o tipo de pessoa que reclama de limão porque é azedo(como se limão pudesse ser doce, se é que você entende a minha metáfora). E garimpar a crítica útil no meio disso faz parte da fina arte de ser insultado. Porque, afinal, da mesma forma, existem aqueles que só elogiam por elogiar, tecendo bajulações genéricas e sem nenhum conteúdo.

O mais importante é não se deixar levar pelas glórias e passar a ignorar aqueles que são contra você só por isso, sem mais razão. Segundo contam(Monteiro Lobato, pelo menos), o César romano tinha sempre ao seu lado uma pessoa que, nos desfiles e triunfos em sua honra, ficava encarregado de lembrá-lo de tempos em tempos de que ele era humano e falho. E se o maldito imperador de praticamente todo o mundo civilizado da antiguidade tinha essa preocupação, quem sou eu pra ignorar isso.


Töpo Talpos é blogueiro, cronista, obeso e cafeinólatra. E sim, está pronto para suas críticas.