A propriedade intelectual de um artista é muito mais do que aquilo que está impresso, ou mesmo manuscrito. Trata-se também de todo o subtexto embutido na obra, de tal forma que a sua adaptação é um ato de considerável periculosidade, pois ou o subtexto sustenta a obra, e portanto a sua modificação a torna, de certa forma, imprestável; ou o subtexto acompanha a nova forma, causando implicações jamais imagináveis. É por isso, então, que a tradução é um assunto deveras complicado.

Apóio a tradução de obras de todo meu coração. Conquanto defenda também que a apreciação do texto em sua língua original é imprescindível para o entendimento do todo, a tradução torna a obra acessível a aqueles que, por uma razão ou por outra, não leriam a obra original. Ou não podem aprender a nova língua – afinal, creio que haja um limite para o número de línugas que uma pessoa pode aprender, e, por mais que eu queira, saber inglês, alemão, grego, russo e japonês fluentes está um bocado fora de meu escopo intelectual –, ou porque não se interessariam mesmo pela obra se não fosse traduzida. Mesmo a adaptação da obra para um novo meio traz novos fãs, muito embora os leais fãs "de verdade" invariavelmente questionem a veracidade da admiração destes novos asseclas. A adaptação de muitos clássicos para o cinema nos recentes anos é um exemplo vivo desta tendência, e embora a adaptação seja sempre falha em algum ponto – eu ainda exijo meu Senhor dos Anéis com a participação de Tom Bombadil –, ela tem sua boa intenção. A acessibilidade é um movimento importante para a vida de qualquer obra.

Mas, após os prós, voltemos aos contras. A tradução é essencialmente uma adaptação e, por isso mesmo, acaba por perder algo no processo. No caso de traduções sobre traduções, a perda não é apenas somada, mas multiplicada, creio eu. O que ocorre no processo de tradução é um conjunto de escolhas que o tradutor deve considerar com cuidado: uma tradução descuidada pode estragar todo o enredo de uma história. Tentarei ilustrar meu artigo com exemplos mais específicos.

Acredito que o dano mais nocivo que um tradutor pode causar em uma boa história é traduzi-la errado. Não falo de cometer alguma liberdade poética que contrarie o subtexto, ou mesmo algum ponto fundamental do enredo mais à frente. Falo de erros crassos. Com o risco de ser elitista – e, se for, que mal há? –, um tradutor não pode ser qualquer "João Sobrinho do Editor" que fez um curso de inglês de três anos. É preciso, além de perceber as nuances da obra, entender o que palavra realmente quer dizer no contexto, é preciso não se deixar cair nas armadilhas mais comuns. O título deste artigo é um exemplo clássico – muito embora, nunca o tenha visto pessoalmente –, em que translation, "tradução" se torna "translação", devido à aplicação indiscriminada da famosa Regra de Ouro "-ation = -ação". Da mesma forma, o erro mais comum que se propaga em dublagens e traduções a rodo é o de se aplicar a regra "-ly = -mente", e traduzir eventually, que significa, basicamente, "com certeza, em algum momento futuro", por "eventualmente", que significa "talvez, de vez em quando". Por mais que se tente, não é a mesma coisa.


Este artigo acabou se mostrando maior do que o esperado. Embora teoricamente eu não veria problema em publicá-lo em seu tamanho original, que perfaz o dobro ou talvez o triplo da extensão do trecho acima, Bruno Guedes prefere dividi-lo por questões de carga do servidor, temendo que visitas de spambots ou coisas do tipo a ele cause um tráfego desnecessariamente grande.

Além disso, evita a atitude comumente designada como tl-dr e ajuda a manter o ritmo de atualização do blog. Por favor, voltem em um ou dois dias para nossa deliciosa continuação.