Mudando nosso foco para casos mais... complicados, analizemos a tradução de nomes. Por via de regra, não se traduz nomes, a não ser capitalizações óbvias(como "Deus", por exemplo). Mas nomes significam algo, mesmo que em outra língua1. Então, o que fazer quando um nome é obviamente tem um significado na língua original, mesmo que, se traduzido, perca a sonoridade de um nome verossímil. A versão brasileira de Discworld, de Terry Pratchett, trabalha de forma interessante com este conceito. o Discworld – nome não traduzido, ainda bem – é um universo semi-medieval fantástico, não diferente do universo Tolkeniano que inspira jogos como Dungeons & Dragons e outros do gênero. A ocorrência de nomes "significativos" é justificada pela influência Tolkeniana, que por sua vez tem raízes em mitos antigos. Logo, "Weatherwax" se torna "Cera do Tempo" – nome, aliás, impróprio: talvez "Cera do Clima" fosse mais correto, embora talvez consonante – e "Twoflower" é nomeado "Duasflor". Nomes de locais, ou que simplesmente não ficariam bem traduzidos, foram mantidos, incluindo o personagem Rincewind, o que mais tarde se torna uma nota de rodapé explicativa.

Recentemente li uma versão traduzida de Animal Farm("A Revolução dos Bichos", em sua versão brasileira, um nome um tanto insípdo, em minha opinião), e achei o trabalho de tradução interessante. O fato que mais me chamou a atenção foi a substituição do nome de vários animais por nomes mais, digamos, "típicos" em português. Boxer, o grande cavalo de tração, se torna "Sansão" na tradução. Mollie, a égua vaidosa, se torna "Mimosa", um nome até significativo na nossa língua. E por aí vai... De início, a adaptação me parecei estranha, mas com o prosseguir da leitura, a escolha pareceu bastante acertada.

Mas talvez o grande vilão das traduções seja o humor. Ou, mais especificamente, o duplo sentido. Quando línguas se desenvolveram com uma certa distância cultural ou mesmo geográfica das outras, certos fenômenos são observáveis. Para nossa discussão, basta constatar que, embora em uma língua dois conceitos diferentes possam ser abrangidos por uma mesma palavra, isso não necessariamente significa que, em outra língua, o mesmo aconteça. Daí o pessoal da tradução encontra um dilema: como traduzir um poema, uma adivinha, uma piada? Sobretudo uma poesia – ou uma canção –, em que a métrica importa. Mas como se traduz uma anedota sem entregar o humor conotativo intrínseco a ela?

Interessante é, também, notar como línguas diferentes criam palavras de acordo com necessidades diferentes. Dizem – ainda tenho que confirmar a veracidade do fato, se não seria só mais uma lenda linguística –, que os esquimós identificam mais de 50 tons de branco, cada qual com um nome. Uma característica interessante da língua inglesa, na minha opinião, são os nomes interessantement poéticos dados para seus coletivos. Um conjunto de leões é chamado pride(orgulho). Um conjunto de corvos, é um murder(assasinato). Um conjunto de gralhas é chamado de parliament(parlamento, fato evidenciado na edição de Sandman entitulada Parliament of Rooks, de Neil Gaiman). Um cardume de peixes(ou baleias) é chamado school(escola, o que talvez gere bons trocadilhos). A criação de nomes específicos para coletivos não é a novidade em si, visto que mesmo em português esta prática se manifesta, mas sim a utilização de nomes comuns não exclusivos para tal. E, claro, isto é outro problema para tradutores daqui e de acolá...

E, finalmente, consideremos uma língua com um sistema de escrita incomum(para nós; assim como tudo o mais, escrita é uma questão de costume): o japonês. Sua escrita é realizada em três modos diferentes, sendo dois silábicos(katakana e hiragana) e um logográfico(kanji). Caracteres kanji são usados de forma que um caracter não corresponde a um som, mas uma palavra inteira. Além disso, a combinação de kanjis funciona de forma mais ou menos semelhante à formação de palavras por composição: a tradução literal de dois kanjis juntos não necessariamente é igual a tradução de um separado do outro. O que, mais uma vez, se revela um desafio aos tradutores...

Então, como se resolve estes problemas? Bom, este é outro problema em si... meu cenário ideal seria um mundo onde o autor fosse contactado para resolver tais dificuldades, de tal forma que a tradução saísse, até certo ponto, como uma segunda edição da obra pelo autor. Ou, em casos que isso fosse impossível – o caso mais óbvio seria a publicação de uma obra póstuma –, que tradutores fossem profundos conhecedores da obra original, desta forma a ocorrência de gafes de tradução seriam muito menos prováveis.

Mas não importa. Duas coisas são verdadeiras no que se diz respeito a traduções de obras: primeiro, que sempre haverão os insatisfeitos. E segundo, que, assim como uma dublagem ruim estraga qualquer filme, uma tradução mal feita pode estragar um bom livro.

E, cá entre nós, eu não consigo ler um livro onde um capitão chamado Acab caça uma cachalote obsessivamente. É uma questão de sonoridade2. É, eu sei, eu sou meio chato com relação a isso...


1: Abro um parágrafo tagarela e vago, no qual discuto porque não chamamos nossos filhos por nomes que signifiquem algo em nossa língua? Imagine uma cidade onde as pessoas são nomeadas como "coisas", mas com letras maiúsculas. Sem estrangeirismos desnecessários, de línguas que já morreram há muito tempo... interessante, não? Talvez este parêntese seja retomado mais tarde, entretanto. O texto já é longo demais para comportar apêndices...

2: Para aqueles que não reconheceram de pronto, a obra é Moby-Dick, e o personagem em questão se chama "Ahab" no original. Sim, eu sei, eu sou uma mala erudita...