Diz-se que artista não recusa inspiração, mas isso é mentira. Eu, como representante da classe neste site que vos... escreve, declaro que seleciono a inspiração que me vem com critério talvez até duro demais, em vista da escassez de textos. Mas vamos ao que nos interessa: uma inspiração que me atinge em cheio nesse exato momento.

Juliana Sardinha se pergunta, em meio a chacotas e mesmo observações sérias a respeito de um horrível site imensamente mal projetado apresentado no Contraditorium, se algum dia talvez a língua oficial deste país seria esse arremedo de linguagem que se prolifera ne internet. Já comentamos sobre o assunto. Hoje vamos estendê-lo.

Realmente: poderia esta linguagem truncada e dita "errada" substituir nosso tão querido modo de falar? Impossível não, é, pois logo se vê que este é o processo pelo qual latim se torna português, e português se torna brasileiro; um processo que nos deu um conciso "você" em lugar de um deselegante e desenecessariamente longo "Vossa Mercê". A língua deve evoluir, caso contrário se torna, basicamente, um fóssil. E todo mundo sabe o que acontece com fósseis.

Senhoras e senhores: eis aqui o grande megatério

Mas existe mudança e existe "mudanssa". Não se trata puramente de se ignorar algumas regras de escrita excruciantemente chatas – como a mesóclise, por exemplo; quem, além de minha pessoa, aprecia uma boa mesóclise de quando em quando? – ou algumas construções anti-ortográficas com um certo sentido em si. Cá entre nós: eu sou a favor da supressão do U obrigatório após o Q. Mas, novamente, o caso não é esse. Voltemos ao assunto.

Viveremos, portanto, para ver "você" se tornar, oficialmente, "vc" – e talvez até pronunciado "vecê" –, e a letra K como parte fundamental de nossa língua? Minha resposta sincera e analítica é um sonoro "não".

Existem fatores além da simples frequência de uso que determinam se uma construção se torna ou não parte do status quo. Temos, por exemplo, uma certa "consciência do erro", uma noção generalizada de que esta forma é errada, embora seja usada por algum razão – seja pelo desejo de enturmação, ou pela pura preguiça. Além disso, a informação de quais são as formas corretas – ou, pelo menos, menos erradas – de escrita e composição estão disponíveis com uma facilidade decididamente maior do que, digamos, a cem anos atrás. Embora estejamos distantes de uma utopia cultural, a informação é reconhecidamente mais acessível. Ergo, a possibilidade do erro continuar se propagando até se tornar acerto é bastante menor.

Mas não nos iludamos: é possível. Improvável, mas ainda sim possível. Por isso é necessário ensinar, advertir e, sobretudo, não sucumbir. A presença da norma culta, se não definitivamente domina, pelo menos garante algum território flutuante no meio da mídia escrita em vários formatos.

E assim, com o perdão do elitismo, poderemos desfrutar de textos que doam menos às nossas vistas pelo menos por mais um dia. É um consolo...