Poucas idéias com intenções tão boas se revelaram mais cheias do mais profundo e completo vácuo ético do que a proposta de cotas raciais. Vocês sabem que eu falo sério, e também sabem que eu divagarei por parágrafos e parágrafos a respeito do assunto, então...

Sabe, quando o assunto entrou em pauta, lá em dois mil e pouco, a justificativa básica era de que havia perseguição racial. A primeira coisa que pensei era que eu estava perdendo alguma coisa, porque a última vez que eu tinha visto um negro ser gratuitamente linchado e acorrentado em praça pública para depois ser açoitado pelos seus senhores brancos foi... pois é, nunca. Me desculpem, eu sou um humorista mordaz nato, conheço muito bem as formas sutis que a perseguição assume. Mas voltemos ao tópico: como toda retórica, ela até que fazia algum sentido, mas depois que se pára pra pensar, a coisa toda desmorona mais rápido que um castelo de cartas. Imagine a situação...

Avaliação das provas de vestibular da UKKK1. Após todo o trabalho de corrigir e recorrigir algumas centenas de provas, uma equipe especializada realiza um trabalho de investigação extensa para descobrir se há algum alundo de descendência claramente africana em meio aos aprovados. Em caso afirmativo, sua prova é rasgada, queimada e desintegrada e sua vaga é ocupada pelo aluno logo abaixo dele. Mas só se ele não for negro também, claro...

Enfim, imagine esse processo. Agora vamos analisar os prós e os contras desse tipo de iniciativa. Os contras:

  • Dá um trabalho desgraçado. É imensamente mais fácil passar alguém que já é conhecido e de quem já se sabe o número de inscrição no vestibular – digamos, o sobrinho-neto do reitor – do que tentar recusar a entrada de uma pessoa tendo somente em mãos o dito número de inscrição. Porque todo mundo tem uma idéia do volume de inscrições de um vestibular, certo?
  • Digamos que um candidato negro tenha passado em primeiro lugar geral. Recusando-se esse aluno, o nível da universidade em exames de avaliação e etcétera cai. De forma imprevisível, mas com certeza cai. E isso nunca é bom sinal.
  • Se o sujeito rejeitado em questão for daqueles que "têm certeza" que acertaram, ele pode entrar com recurso para revisão da correção. Se ele ganha, a imagem da universidade cai na lama "bonito".

E agora, os Prós:

...Nenhum. Porque, sinceramente, eu não vejo como uma universidade sem negros é uma universidade melhor em algum sentido. A não ser que exista algum índice por aí baseado na quantidade média de melanina per capita, o que seria a coisa mais incrivelmente racista que eu já vi na minha vida.

A questão é que a coisa toda não faz sentido. Uma Universidade Federal não tem condições de praticar um regime desses, e uma universidade particular... bem, eles são uma organização particular, não sei se existe alguma lei que impeça uma instituição particular de exercer algum tipo de discriminação. E ainda assim, novamente não faz muito sentido, porque o trabalho ainda é grande. Enorme, talvez.

Mas então, a razão altruísta e bondosa não é satisfatória. O que resta? Uma razão um tanto quanto hipócrita e – pasmem! – racista. Vejamos, como é que alguém pode ter menos chances no vestibular? Basicamente, por duas razões: ou não teve preparação, ou não teve inteligência. A falta de preparação decorre, obviamente, da falta de boa educação de base que, convenhamos, não se consegue em qualquer escola pública hoje em dia nesse nosso querido país. Ergo, a premissa que gera as cotas raciais é: ou todo negro é pobre, ou todo negro é burro. Ou pior, os dois. Nada mal para uma lei que visa combater a discriminação, hein?

A verdade toda é que as cotas raciais não fazem sentido como iniciativa altruísta, e até organizações de cunho racial – de negros, só pra constar – são contra essa aberração legislatória. Afinal, mesmo na medida em que brasileiro adora que passem a mão na cabeça, ninguém gosta de ser chamado de idiota e ser empurrado pra frente sem nenhum mérito. Certo, "ninguém" é demais, mas mesmo assim, é desagradável.

Sem contar que não se ganha nada cortando vagas de alunos capazes e que passaram no vestibular por mérito – certo, deixe-me refrasear: porque conseguiram tirar uma maldita nota boa, por capacidade própria e/ou sorte, embora sorte seja um fator, por natureza, caótico – e dar vagas a alunos que podem ter se saído aquém do resultado mínimo para o resto dos candidatos sem direito a cotas. O vestibular não é uma forma de seleção perfeita, mas é bom o bastante para os fins pretendidos: dar conhecimento e orientação a um sujeito com maiores chances de usá-los bem. Se pessoas com potencial – o que, aliás, é um critério um tanto quanto difícil de medir – não estão sendo admitidas, é porque há algo errado no processo anterior, e não na prova em si. Investir na educação de base, meus caros, seria a solução ideal. Mas falamos disso outro dia, porque esse assunto é longo.

E o motivo final para que as cotas raciais para afro-descendentes sejam uma péssima idéia: esse tipo de "ação afirmativa" é um poço de areia movediça. Se há cotas para negros, por que não cotas para indígenas? Ou asiáticos? Mulheres? Homossexuais? Muçulmanos? Nordestinos? Gordos?...

No fim, vale a pena prezar a diversidade acima da qualidade? Eu, sinceramente, acho que não.


1: Pelamordedeus, universidade fictícia. Se você não percebeu... eu não vou comentar.