Ouvi do Karlisson, que ouviu do H. Milen: o senhor ministro Hélio Costa, das Comunicações, fez o seguinte comentário durante a abertura do 25º Congresso Brasileiro de Radiodifusão:

Essa juventude tem que parar de só ficar pendurada na Internet. Tem que assistir mais rádio e televisão.

Prefiro desconsiderar a falácia óbvia que é mencionar "essa juventude" num comentário desta natureza, com jeito óbvio de velho nostálgico. Penso, aliás, que eu não sou o único a imaginar que algum dia alguém também disse que "essa juventude tem que parar de ficar pendurada nessa tal televisão e ouvir mais rádio"... Nevermind. Respondendo telepaticamente à minha óbvia pergunta, "como assim?", ele "provoca":

O setor de comunicação fatura R$ 110 bilhões por ano. Desse total, somente R$ 1 bilhão é do rádio e R$ 12 bilhões das TVs. O resto vocês sabem muito bem onde está.

Não entendi bem o objetivo de tal colocação. Se a Internet está obviamente tão melhor sucedida do que a radiodifusão, por que tentar barrá-la com retórica vazia? Não seria melhor investir nela?

Qual a diferenç entre a televisão comum e em alta definição? O lixo aparece mais nítido

Ademais, agora é minha vez de jorrar retórica. Em primeiro lugar, a pergunta permanece: por que eu deveria deixar a Internet de lado e assistir televisão? Tenha em mente, estamos falando de TV aberta. Eu já mal assisto TV a cabo, que dirá a TV aberta, e normalmente assisto indiretamente porque a televisão no mesmo quarto foi ligada(não por mim). Voltemos ao que interessa, a programação não está boa. Os programas com maior nível cultural/educativo são empurrados para os horários "ótimos" de sábado e domingo de manhã. Poucos bons programas, filmes e documentários normalmente são dublads/cortados/encurtados. Domingo à tarde, então, é o pior horário, fica até difícil decidir entre Faustão e Gugu, o que é pior. Na dúvida, nenhum, mas o resto dos canais também já teve melhores dias...

Por outro lado, a Internet me dá o que eu quero, enquanto que na televisão eu estou à mercê de um executivo de emissora que escolhe por mim o que eu devo assistir. E, ainda mais importante, quando eu quero. Não é que eu "queira tudo agora", não é pressa. É pelo contrário, eu quero não ter pressa nem hora marcada. É a oportunidade de assistir o que eu quiser na hora em que melhor me couber, e não em horários demarcados. Posso ter as notícias do dia(ou da hora, do minuto, whatever) à hora que me melhor couber, ao invés de ter que marcar horário pra ligar a TV e assistir ao jornal. Posso até reler as notícias se eu quiser, ou revê-las outro dia. Essa é uma desvantagem que, pelo que sei, a televisão está longe, mas muito longe de cobrir por si só.

E não termina aqui. A rede é outro meio completamente diferente, com suas próprias características. É um meio bidirecional, enquanto que a televisão é obviamente uma caixa de transmissão e somente isto. A comunicação na direção oposta tem de ser feita por outros meios externos – principalmente telefone e... e-mail –, e mesmo assim é tratada com o mesmo descaso que se vê na mída tradicional. Não existe muita possibilidade de diálogo.

Enfim, se a fatura de outros meios é quase dez vezes maior do que de televisão e rádio juntos, é culpa destes outros meios de maior sucesso? Não. É culpa do público? Acho que não. É culpa dos produtores de televisão e rádio, que não estão dando ao público o que ele quer. Darwin explica, seleção natural, e o fator de seleção aqui é público, portanto ativo. Pois se hoje em dia até os programas de rádio e televisão estão incentivando o uso da Internet pelos seus telespectadores – a última vez que vi, o Fantástico sempre tinha algo no site depois de cada matéria –, me diz, Sr. Ministro, pra quê eu vou parar de "ficar pendurado" na minha querida Internet?

Fonte: Artigo no Teletime, via @karlisson, via @h_milen

Imagem: Tux Vermelho, et al