A notícia está se espalhando tão rapidamente meio aos muitos e muitos blogs que ninguém pára para pesquisar e procurar a verdade. A salsa se alastra rapidamente por essas notícias mal divulgadas, e parece que cabe a mim e exclusivamente eu para tentar ver o famoso outro lado da história. Nota: enquanto conto a história, vou contando os indícios de "boatismo".
Pobre cão?
Segundo notícias correndo em e-mails desde outubro de 2007 [indício número 1: a notícia corre anonimamente há muito tempo], um artista de nome Guillermo Habacuc Vargas fez uma performance polêmica ao amarrar um cão faminto em uma galeria de arte na Nicarágua, logo abaixo de uma parede com palavras escritas em ração. O cão havia sido capturado nas ruas da Nicarágua no dia anterior. Segundo relatos [indício número 2: não há nomes relacionados aos relatos], o cão foi mantido em estado de fome e sede intensas por toda a exposição até morrer a olhos vistos de inanição [indício número 3: sensacionalismo, doce sensacionalismo!]. O pior? O monstro(é, é assim que chamam o sujeito. Disso pra cima!) quer repetir a dose na Bienal de Honduras este ano!

Isso é o que todo o mundo diz e se revolta e quer linchar o cara. Mas há, claro, o outro lado.

Segundo uma carta de clarificação do diretor da galeria,

El perro permaneció en el local tres días, a partir de las 5 de la tarde del miércoles 15 de agosto. Estuvo suelto todo el tiempo en el patio interior, excepto las 3 horas que duró la muestra, fue alimentado regularmente con comida de perro que el mismo Habucuc trajo. Sorpresivamente, al amanecer del viernes 17, el perro se escapó pasando por las verjas de hierro de la entrada principal del inmueble, mientras el vigilante nocturno quien acababa de alimentarlo limpiaba la acera exterior del mismo.
Traduzindo: "o cão permaneceu no local por três dias, a partir das 5 da tarde de 15 de agosto. Ficou solto todo o tempo, exceto as três horas de duração da mostra, foi alimentado regularmente com comida de cachorro que o próprio Habacuc trouxe. Surpreendentemente, ao amanhecer do dia 17, o cachorro fugiu(...)". Além disso, as obras que constarão na Bienal não incluem essa do cão. É, acho que os críticos não curtiram, também...

Esta é a carta do dono da galeria. Está na íntegra e declara que o cão não sofreu mais maus tratos do que ser amarrado durante três horas sem comida e água por três dias. Nada grave, ao meu ver. Depois ele fugiu. O objetivo de Habacuc, segundo o Snopes, era mostrar a hipocrisia humana, visto que se o dito cachorro estivesse na rua, ninguém ligaria xongas.

Longe de mim ser o dono da verdade, mas quando o próprio dono da galeria – que afirma, veementemente, logo de início, que nada tem a ver com as idéias ou os métodos de Habacuc –, a wikipédia e até o próprio FAQ do site da Humane Society International dizem o contrário que um monte de blogueiros gritando e esperneando no melhor estilo Late Show, eu tenho um viés imensamente voltado para o lado oficial da história, dá pra me entender? Ótimo...

Sim, eu sei. Habacuc estava atrás de polêmica e conseguiu, além de várias ameaças de morte. Tenho também de dizer que, sinceramente, a "obra" dele é do mais baixo calão na minha opinião, visto que envolve pouquíssima criação. E, claro, usar animais vivos em arte é definitivamente desaconselhável por vários motivos, oh, sim...

Mas eu não posso ficar calado quando tantos são levados a um engano que fere não só a integridade do alvo, mas também nossos ouvidos. Afinal, esconder a verdade é tão criminoso quanto espalhar a mentira, certo?

UPDATE: Lili Abreu escreveu uma indicação para este post no ELA. A meu pedido, sim. Aparentemente, as pessoas ou não lêem ou não se interessam. Os comentários já estão variando nos dois extremos...