Ontem às 20:30 foi a "Hora da Terra". Se vocês estão se perguntando porque eu não mandei publicar isso ontem, foi por razões ideológico-criativas. Eu não conseguia me dignar a postar depois disso aqui. Às vezes o Cardoso me mata... Mas aí eu resolvi que eu poderia escrever algumas coisitas a mais. Então, comecemos o quebra-pau!

Várias coisas são reveladas sobre a natureza e o pensamento humanos quando se decreta uma "Hora da Terra". A maioria delas, ruins. Acho que já era consenso geral que o ato era puramente simbólico, então menos mal. Mas ainda nada bom. Comecemos com o meu pensamento misantrópico favorito, o de que a humanidade pensa demais de si mesma. Esse planeta nasceu como uma bola de fogo, passou por inúmeros impactos de meteoros, uma extinção em massa, uma era glacial. Se nós ou as vacas enchermos a atmosfera de gás carbônico ou metano, causando o maldito efeito estufa, não faz a menor diferença para a Terra. No que lhe toca, é mais importante o fato que o Sol algum dia irá se expandir para tamanhos perigosamente enormes, engolindo-a na explosão que se seguirá, ou antes. Sobre esses germes em sua superfície, duvido que ela se importe.

Aliás, falando nisso, aparentemente poucas criaturas se importariam se a humanidade finalmente se extinguisse. Provavelmente até os pandas, os fracassos darwinistas da natureza – o bicho só se reproduz em condições perfeitas de época, clima, temperatura e pressão – se virariam melhor sem nós. Somos um bando de egoístas que acham que o mundo morre se não estivermos aqui. Meio coisa de criacionista, que acha que o Universo foi criado para nós, e deixará de existir conosco. Ou quando uma criança "se esconde" fechando os olhos, porque acredita que se ela não pode te ver, você não pode vê-la. Entendeu meu raciocínio? Ótimo.

Segunda questão: a ambiental, propriamente dita. A despeito do meu ódio pela espécie humana e derivados – toupeiras escreventes, por exemplo –, eu acredito que é legal não poluir esse planeta e tornar a vida do resto da biosfera mais tolerável. E aí a questão importante é que a "Hora do Planeta" tem como objetivo diminuir a emissão de gases poluentes através da redução do consumo de energia elétrica. Uau, que sumpimpa, né? É... não, na verdade não. Por uma série de razões.

Primeiro: eu não entendo muito de produção de energia, mas até onde sei as usinas não páram se você pára de usar energia. Ela só vai ficar acumulada em capacitores gigantes, ficar rodando em um circuito interno, ser liberada aos poucos como calor ou coisa do tipo. Segundo: mesmo se eu estiver errado e as usinas realmente pararem por um tempo, a premissa só é válida no caso de usinas que usam combustíveis poluentes, que são as termelétricas. Ou termoelétricas. Enfim, isso é obviamente coisa de americano e europeu. Nesse país enorme e cheio de rios, cerca de 90% da energia elétrica é produzida por hidrelétricas, míseros 10% por termelétricas. E, caso você esteja pensando nisso, a emissão de poluentes pela hidro é proveniente da decomposição de material orgânico nas represas, e não pára se a produção parar. Ou seja, não adianta nada.

Mas, principalmente, o modus operandi é ridículo. Apagar todas as luzes de casa é, convenhamos, muito ingenuo e ínfimo. Apague as luzes, mas deixe as televisões e computadores ligados, e dá na mesma. Pior, tome um banho quente, ou deixe sua geladeira ligada, e o gasto abusivo de energia advindo da ativação de máquinas térmicas mais do que torna a iniciativa inútil.

Ah, mas aí você vem nos comentários e usa minha própria citação, "acho que já era consenso geral que o ato era puramente simbólico", pra me falar pra deixar de ser um chato. É... não. Não vou, não. Existem muitas outras iniciativas legais que poderiam ser feitas nessa hora. Aliás, poderia ter decretado um "Dia do Planeta" ao invés, daria pra fazer alguma diferença real ao invés de um ato puramente simbólico! Mas creio que isso tem a ver com a mentalidade idealista dos idealistas que se importam com isso. Uma hora de reflexão, e o mundo será um lugar melhor logo após. É, claro. E eu vou parar de beber café amanhã, também...

Enfim, talvez algúem já tenha dito que por trás de toda ação solidária sempre tem um espírito egocêntrico. Sejam patrocinadores ou apenas ambientalistas de fim de semana – ou, pior, de meio fim de semana –, isso pelo jeito é verdade na maioria dos casos.