Como especialistas não nos cansam de lembrar, e as pessoas não cansam de esquecer, "deve-se tomar cuidado com tudo o que se lê ou escuta" nos meios de comunicação. As pessoas se lembrar mais frequentemente dessa máxima nos meios mais modernos, sobretudo a Internet e nossa "querida" Web 2.0, mas se esquecem de aplicar o mesmo princípio para a "mídia tradicional". Por isso, eu mesmo vou dar um curso rápido e prático de como analisar esse tipo de coisa.

A maneira mais fácil de divulgar informação sem dizer absolutamente nada que realmente faça sentido é usar números e não dizer de onde vêm. Por alguma razão, o cérebro humano médio rejeita números e absorve a coisa toda sem pensar. Sobretudo, estatísticas.

Por exemplo, se eu disser que, dos aproximadamente 6 blhões de pessoas no mundo, 1 bilhão são chineses, o impacto é bem menor do que dizer que de cada 6 pessoas, uma é chinesa. Carl Sagan chama isso de "Falácia das Estatísticas de Números Pequenos".

Quem sou eu pra criticar a mídia tradicional e secular — sou uma pessoa que consome a informação deles, é quem eu sou —, mas o Fantástico tem a séria mania de divulgar dados sem explicar como eles foram obtidos. A revista Super tem exatamente o mesmo defeito, mas não desviemos do assunto. Nesse Domingo, o Fantático metaforicamente espancou o cavalo morto da seuxalidade com o metafórico gato morto da diferenciação até que ele metaforicamente miasse. Em outras palavras, pela enésima vez resolveram tocar no assunto da diferença entre homens e mulheres.

Pois bem, dentre as informações "polêmicas, mas verdadeiras" do mini-documentário, temos:

  • Mulheres falam até 300 vezes mais que os homens
  • Homens são mais diretos que as mulheres
  • Homens mentem 5 vezes mais que as mulheres
  • Mulheres detectam mentiras 10 vezes mais fácil que os homens

Oh! OK, já deu pra absorver, agora sejamos racionais...

Inicialmente, o que acredito que seja o maior problema, o Fantástico não cita fontes ou métodos. Veja bem as informações: é fácil estabelecer a média de palavras ditas, mas nada é dito sobre que grupos foram testados, grupos de controle, variações ou mesmo o efeito "olho do macaco".

Mas piora. Olhe a estatística sobre mentira. Como se mede a quantidade de mentiras? Pergunta-se? O fato básico de que o ato de pesquisar muda o resultado da pesquisa, além de um pouquinho de senso comum, já exclui essa possibilidade. Todo mundo sabe que polígrafos, os "famosos" "detectore de mentiras", são falhos. E, claro, podemos usar os fatos contra eles mesmos. Observe.

Poucos minutos antes, os apresentadores afirmam:

(...)Quando se pergunta a um homem se ele gostou de uma festa e ele diz "Gostei.", é porque ele gostou da festa.
Quando se pergunta a uma mulher se ela gostou de uma festa e ela diz "Gostei.", é porque ela não gostou nadinha(...)
Extrapole o fato básico para cerca de 720 vezes(consideremos que uma mulher é irônica apenas uma vez por hora e meia do dia enquanto acordada, o que é menos do que a afirmação categórica acima implica). Me diga, em que mundo bizarro eu aterrissei onde dizer o contrário do que se diz não é considerado "não mentir"?

Outra, nossa mais querida estatística com viés femista, segundo seja lá quais são as fontes do Fantástico, as mulheres detectam mentiras com 10 vezes mais facilidade. Desconsideremos o argumentos padrão de que o experimento que prova isso não foi sequer mencionado. Isso é óbvio. Mas o que agrava é que, digo por experiência própria, mulheres têm um método assaz peculiar de detectar mentiras, o famoso "método água do banho" — nome advindo da expressão "jogar fora a água do banho com o bebê dentro" — , ou seja, para uma mulher, tudo é mentira até que se prove o contrário. Isso pra mim não é "detectar" mentira, é "atirar no que vê e acertar o que não vê". Se você é homem e já apssou pela horrível sensação de dizer a verdade "e nada mais que a verdade" e aguentar um ataque de desconfiança de sua parceira, entende. E não venha me chamar de generalista, quem começou foram eles!


Divaguei, enfim. A questão é: dados não surgem do nada, e dados que vêm de fontes duvidosas devem ser questionados. Espero que aprendam essa lição e comecem a prestar atenção no que ouvem.

Lembre-se, dizer a verdade é dever deles, mas tentar encontrá-la em meio a montes de meias-verdades é problema seu.