Não ache que não, a mídia tem mais buracos – e com buracos quero dizer "falhas" – do que uma peneira. Ou, para melhor ilustrar, um escorredor de macarrão. Uma das falhas mais gritantes e perigosas é o modo como a concorrência ocorre.

Concorrência em si, deixemos claro, é muito bom. Mas o problema é que cada meio trata e reage à concorrência de maneira diferente. Lojas abaixam os preços, universidades oferecem mais cursos(ou brindes... putz!) e jornais... bem, vamos do começo. O que um jornal vende? Informação. Teoricamente, o jornal com a melhor informação ganha mais leitores. Na prática, entretanto, a coisa não acontece assim, porque pelo menos 80% do público não quer só informação. Quer história. Quer polêmica. Em palavras censuradas, quer p-taria, mesmo.

Jornal Super Notícias: como atrair leitores com imagens E manchetes chocantes E aí, claro, mora o perigo. Não é o jornal que tem a melhor cobertura ou a melhor abordagem dos fatos que vence. Obviamente, é o que gera mais auê. E, claro, provavelmente existe algum tópico da ciência da informação que cuida disso, mas em linhas gerais, povo não lê, só passa os olhos. Se você não prende a atenção do Zé nas primeiras cinco palavras, ou nas letras graúdas ou com imagens, você perdeu o Zé. Nota-se como a capa do Super Notícias é diagramada: há um espaço para manchete bombástica, um para tragédia, um para futebol e um para mulheres de corpo esculturalmente editado por computação. Pronto, cliente satisfeito!

Okays, não vou criticar o Super por sua capa. É estratégia de marketing, é o conteúdo que conta. E o problema é quando a estratégia de marketing corrompe o conteúdo. E é exatamente aí que o perigo realmente mora. Como nos mostra habilmente Marmota e eu desenvolvo.

O caso de Isabella, a menina que saiu voando do sexto andar do prédio por causas ainda desconhecidas, embora suspeitas, comoveu pessoas a torto e à direito e pelo que parece, assim como os casos de padres pedófilos e morte de pais, andou gerando crimes relacionados. Ainda ontem uma criança de oito dias caiu do quarto andar de um prédio. Lamentável, mas voltemos ao que estávamos discutindo...

As suspeitas indicam que a menina não simplesmente "caiu", mas "foi jogada" de lá. E há suspeitas de que tenha sido o pai. Não há certezas. Só suspeitas e "apontamentos". E o que é que o Diário de S. Paulo publica na manchete?

Pára, pai! Pára, pai!

Isso é um problema. O sensacionalismo já não é uma coisa boa, sempre deixa a mídia com cara de idiota no fim. Mas quando o sensacionalismo ataca gente que, no fim, não tem trolhas a ver com a história, que se dana ainda mais quando as cartas são postas na mesa são os acusados. Porque a investigação pode durar dias. E durante esses dias, o povo não quer saber, vai tratar as notícias como verdade e, se não cuidar, esse pai acaba linchado em praça pública... e, o que é pior, se as suspeitas estiverem incorretas, não há retratação, compensação, nem sequer um pedido de desculpas. De repente, tudo se esquece, e os envolvidos ficam... é, na merda, mesmo...

Não é a primeira vez, nem aqui nem em lugar nenhum do mundo. Sensacionalismo faz parte do modus operandi da indústria jornalística para atrair público. Não é correto. Não é desejável. E podiam pelo menos tomar cuidado com o que escrevem. Porque, infelizmente, o público confia...