Comentários Iniciais: Este é nosso primeiro conto disponível a público, lembrando que, segundo nossa licensa Creative Commons, não é permitida cópia sem citação do autor(eu ou Bruno Guedes, de preferência ele). No mais, aproveito para demonstrar a estrutura da apresentação de contos e também alguns textos de referência do Guedes Mythos em geral. Primeiro, um comentário meu, depois um dele, seguido do corpo do texto sem interrupções, e por fim uma leve auto-análise minha. Aproveitem, portanto.


Bruno Guedes Comentário do Rapaz: Este é um tributo à idéia original do que teria sido um livro de mesmo título. O livro seria um tributo a Malba Tahan, uma história de trejeitos arábico-Tahanianos e repleta de pequenas fábulas e parábolas. Infelizmente a história estacou em um ponto de onde não saia muita coisa, por isso foi abandonada, e desovou esse pequeno requiém. De certa forma, honra perfeitamente a função.

E, a propósito, a caravela a que nos referimos é o animal Physalia physalis. Parece óbvio, mas não custa avisar.


Ao nascer do sol, ele se posiciona na borda cavada do penhasco. Prepara a linha. Amarra o anzol, na ponta um peixe morto. Joga o anzol na água, espera o vento levá-lo pra baixo da bolsa brilhante da caravela. E espera fisgar, a paciência é necessária... Quando o animal letárgico agarra a presa, ele puxa com cuidado para os tentáculos não se quebrarem no caminho pedra acima. E guarda-a na bolsa. E já é quase tarde.

No meio do oásis, grande oásis, imensa ilha verde no meio do grande deserto, ergue-se o palácio da realeza. A princesa Niela acorda por volta do meio da manhã, e acordar é, antes de tudo, um ritual. Levantar-se, despir-se, banhar-se, vestir-se, e a vestimenta é um ritual à parte. São tantas peças de roupa, tantos nomes e tanta formalidade que dá desânimo até de acordar. Mas a burocracia política exige que ela esteja perfeitamente acordada e consciente, pois de que valerá uma princesa adormecida para um reino ativo? Há, então, que prosseguir: vestir-se, arrumar-se, e descer para a refeição. O pescador, no alto da pedra, joga o anzol.

E findo o desjejum, hora das obrigações e mais obrigações. Tratados, acordos, ameaças, presentes, diplomacia... trabalhos de Rei, a princesa prossegue na sua vida de frivolidades pricipais, coisas como... como passear pelo jardim, seguir pelas ruas da cidade em sua torre de marfim, elevada por um elefante, presentear o povo com sua beleza... prazeres pequenos de mulher, conversas sob as palmeiras, servidas por escravas, as discussões... os cortejos, no fim da tarde, ela ouve comentar, e teme. Os cortejos duravam mais de mês, e se afunilou para dois pretendentes. E eram ambos, cada qual de sua maneira, um primo de homem. Um dos feudos vizinhos, outro do misterioso além... Ambos habilidosos, garbosos, elegantes... ambos muito bons pra se jogar fora. Há que se notar a aflição dentro do peito sinuoso da princesa Niela. E o pescador recolhe a linha, a caravela brilhante e confusa subindo despenhadeiro acima.

Um, Ajahmed, do palácio ao leste da grande lagoa, um belo rapaz, jovem, da idade da princesa, a família dona da outra metade dos domínios do oásis, verdejante palmeiral que se estende naquela paragem. Vestindo-se com brilho, portando a espada familiar representando a coragem dos ancentrais que nunca mais foi usada desde as guerras de tanto e tanto tempo atrás. Vivendo num luxo tão igual, imerso nas suas tarefas de jovem da alta sociedade, de viver no luxo, reclamar o tédio e gozar do povo que vive pobre para os servir. Cortejar, cortejar, festejar e descansar. E nunca se esquecer de cortejar. Ele segue para o grande castelo por volta dos dois terços da tarde, preparando os galanteios à princesa e os insultos a seu concorrente. Uma caravela se deixa levar pelo vento até a borda das linhas tremulantes em torno do anzol que bóia.

O outro, distante, chamado Rashtan, de roupas e aparência exótica, um queixo barbeado e pontudo como um bico de pássaro, a pele cor de canela, o corpo bem conformado, corpo de povo que anda por dias e dias no sol e areia cruéis que devoram a carne dos viajantes. Usava como arma a incognitez e o charme inerente à sua pessoa oculta vinda de longe, dos longes magníficos do leste do deserto, terra em que a areia vai aos poucos se transformando em grama e árvores. Vem ele em sua montaria audaz, como um vento novo vindo das terras desconhecidas. Vinha e voltava como muito bem entendesse. O pescador espera, paciente, a caravela. Retorna a linha à água.

E Niela, recolhida aos aposentos, deitadas nas muitas almofadas, servida de um prato de tâmara e figos e uvas passas, maquina, pensando... já fora tão difícil reduzir os pretendentes a dois, agora mais difícil será escolher um. Ela, jovem e despreocupada, mas o pai é que se precavê por demais, e quer logo que já fique determinado o certo herdeiro, quer que esteja tudo bem pronto pra hora de sua morte derradeira. É preciso, ele diz, que esteja bem escolhido. Ele confia na filha, e ela não aguenta essa confiança, pois não quer decidir, quer mais é ficar pelo jardim, conversando com suas amigas, comento figos e cobiçando o corpo dos escravos, e divertir-se a se oferecer para os fiéis pobres rapazes que sabem e recusam os convites descarados. Prazeres frívolos de mulher-menina. O rapaz examina a caravela no sol, brilhando em violeta, magenta e bonina.

No sol de meia-tarde, o sol caído pela metade, à sombra avermelhada, é esse o momento em que a idéia atinge Niela em cheio nos miolos, e ela sorri aquele sorriso único das idéias ocorridas em momentos de pura contemplação, aquelas idéias que se sabe, de início, que nunca deviam ter sido pensadas. Ela fica em seu quarto examinando e refinando o esquema que vem para ela quase que pronto, gritando para ser posto em prática. Ela sai pela porta do palácio em direção à casa de banho. O pescador relança a caravela, pequena demais, ao mar, flutuando no ar.

Ajahmed, garboso e brilhante, vestido de ouro, chega ao palácio. É recebido, como costume, com aquela pompa característica das formalidades nobres do deserto, a café e bolos-de-rei, o Rei próprio vem acompanhá-lo aos salões de corte, o grande salão de chá. E ele espera somente a chegada de Niela, que deverá estar bela e decidida para novo embate. Irrompe pelas portas, entretanto, um criado, nu da cintura para cima, molhado em suor de corrida sob sol quente, ofegante e urgente, a dizer que Niela, inocente e pura e bela e princesa, fora raptada e estava a ser levada e escondida pelo outro, Rashtan, que chegara montado no seu ruminante veloz e se fora sem ser visto por ninguém. Ele mesmo, sabia disso porque ela fora vista, por puro descuido, por uma carregadora de água numa ruela perdida da cidade. Ajahmed, branco como areia de praia, o Rei quase se cai para trás, ambos só surpresa e pavor. O outro, deslealmente, raptara o alvo das cortesias, raptara para si e mais ninguém a princesa, o símbolo da beleza e da pureza do oásis. Ajahmed se sentia invadido, aos poucos, por um calor estranho, um calor que revirava as entranhas. O Rei era levado, arrastado, a seus aposentos. O pescador armava o anzol com mais um peixe estufado e amoníaco.

Ajahmed, acalorado de raiva, mão no punho da espada, símbolo brilhante e vivo do brio familiar que datava do tataravô, saiu às ruas, disposto a caçar, na base da caminhada exaustiva, o rastro do oponente sujo. Enquanto isso, o suposto sujo, traidor e pestilento adversário vinha chegando, inocente e ignorante do fato,pronto a exibir seu charme especial de rapaz misterioso, e vinha vindo na direção dos portões, vindo de encontro a Ajahmed, que fervia de raiva no sol escaldante e enviesado. Antes de se dar conta de alguma coisa, antes sequer de se desculpar pelo suposto atraso, encontrou-se desmontado e caído no chão, sua montaria única fugia, pressentido o perigo iminente. Rashtan teve muito pouco tempo para se defender e jogar seu oponente no chão antes de se ver imobilizado pela ponta de uma espada pronta a se cravar com sede na garganta. Se levantou, sacudiu a poeira, pisou na espada caída, mandou o nobre local se levantar também e retratar-se. O outro, estava cego e surdo de fúria, atirou-se sobre o outro, punhal em punho, rolando chão e areia afora. O estrangeiro, em gestos rápidos, sacou também sua lâmina e engalfinharam-se, para depois responder-se a perguntas. O que sabia de algo logo jazia no chão, sujo de sangue, estancando de areia, semimorto, ofegante. No calor, e no desespero, caiu, pronto a morrer e deixar o outro na dúvida eterna de, afinal, o que é que estava acontecendo. E o pescador, no alto de sua pedra, fisgava em pronto a caravela, que se explodiu no encontro intenso do anzol com a bolsa.

Niela, em águas quentes, se deliciava em imaginar seu plano ocorrendo, em fatos, nas imediações do castelo. A essa hora, Ajahmed, o orgulhoso filho de nobres, estaria morto, caído no chão, aos pés de Rashtan, o valente e obviamente mais forte galanteador do exterior. Mas seu pai, horrorizado, não pedindo nem sequer explicações, teria já então deixado claro seu desejo de matar o maldito raptor de sua querida cria, e, então, o primeiro arqueiro que visse ali mesmo nas muralhas do castelo a figura confusa e bela de Rashtan, parado e insuspeitando de tudo, haveria de acertá-lo então em cheio no meio do coração. E estariam, em pouco tempo, ambos mortos. E adeus escolha, adeus obrigações, e ela gargalhava alto com seus próprios pensamentos. E o pescador recolhe a última caravela. Chega à cidade e sabe do ocorrido. E sabe mais: que o Rei, desperado e fraco de emoções, morrera após dar a ordem de morte a Rashtan. E então, aquele rapaz sortudo que encontrar a princesa, esteja ela em que cárcere imundo e maldito estivesse, seria Rei por decreto póstumo. O rapaz balança a cabeça e segue para casa. No dia seguinte, é aprontar a linha, o anzol, e voltar ao penhasco.


Korso Análise Rápida de Korso Asclepius: um conto rápido, bom para iniciar a série. Afora isso, é uma história que se desenrola de forma fluida e simples, com um final levemente inconclusivo, como é de bom tom do conto pós-moderno.

Mas uma pergunta sempre fica no ar: o que, afinal, significa isso? É difícil atribuir significados à arte, sobretudo à arte escrita. Não há imagem, e os modos do estilo são sempre sutis. Mas percebe-se um padrão, e arriscamos. O palpite aqui é que o Pescador representa todo o povo, que foi omitido quase que sumariamente deste conto. Enquanto a intriga e a confusão reina nos âmbitos dos nobres, o povo está calmo porque não sabe, e continua calmo porque não se importa. No fim, o Pescador simplesmente se conforma com os trâmites do governo e continua sua vida simples; afinal, "alguém tem que trabalhar".

E se há outra pergunta, ela deve ser: e as caravelas? Pelo que tudo indicam, são um resquício do texto ao qual este conto cava o túmulo. Mas também são uma metáfora simples, embora levemente obscura: cada caravela é um "pepino", um pequeno problema que cabe ao pescador recolher e resolver. Como, ou o que fazer com uma caravela depois de morta, cabe a ele decidir e saber. Alternativamente, poderia ser outra figura metafórica do povo: afinal, os trabalhos pequenos, porém importantes — como livrar o mar das terríveis caravelas — tem que ser feitos por alguém, e normalmente alguém que está bem abaixo na escala hierárquica.