Boa noite, meu nome é Korso Asclepius e, como talvez vocês já saibam – embora talvez não, são estarrecedoras as chances de que qualquer pessoa que frequentava este site até o ano passado tenham simplesmente o abandonado por agora – sou o que se pode chamar de um "linguista de fim de semana". E o que faz um linguista? Bom, basicamente ele estuda línguas. Sua formação, sua evolução, suas características peculiares. E, como linguista de fim de semana, resolvi dedicar um fim de semana a esta polêmica que está dando a volta na internet em 80 dias: o tal livro de português que ensina a falar errado.

Fareicomo Shakespeare e pularei para a conclusão óbvia: é tudo um exagero sem tamanho, uma verdadeira tormenta em copo de água. E, para iniciar esta defesa de tese em miniatura, comecemos pela evidência A: o texto.

Você pode estar se perguntando: "Mas eu posso falar 'os livro?'."
Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas pela norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião

Pois bem. Vamos ao cerne da questão: o livro ensina a falar errado?

Não. É óbvio que não. Onde é que você leu isto?

Quando eu cursei o ensino fundamental, ensinava-se que existem diferentes normas linguísticas: a culta e a coloquial. A norma coloquial é aquela que você usa com seus amigos, família, colegas, etc. E a culta, obviamente, é a usada em ocasiões formais e situações afins. Incluindo provas. Pois bem, eu falho em ver o quanto isto que acabei de dizer é diferente do que o livro diz.

Talvez o problema todo seja a forma explícita que o livro escolhe para dizer isto. Como se, por dizer ao aluno que o que se fala em casa ou na rua não está errado, mas apenas possivelmente inapropriado, o livro estivesse incitando uma total revolução linguística. Pois bem, e se estivesse? Línguas não ficam paradas, se ficassem estaríamos até hoje falando latim(ou algo ainda mais antigo, por que não?). Ou, para usar um exemplo menos drástico, quantas vezes você, caro leitor, já se utilizou daquela aberração que é a mesóclise? Ou usou a segunda pessoa do singular e do plural de forma correta? (Esta não vale se você for sulista.)

Mas enfim, livro nenhum quer fazer ninguém desaprender a falar. Ninguém está dizendo que a nova norma é norma nenhuma. Só estão reconhecendo que o português não é uma língua engessada e única em todo o enorme território nacional, e portanto fala-se diferente em lugares e situações diferentes. A função da língua é comunicar. Estética, estes são outros quinhentos.

Então, por favor, chega de chilique. Esta polêmica já chegou até aqui, e como tantas outras nem sequer deveria ser polêmica, pois é uma questão absurdamente simples e inócua. Nos preocupemos com coisas mais importantes, sim?

E vamo-nos.


Korso Asclepius é blogueiro, artista, linguista de fim de semana e membro da Associação Pela Abolição da Mesóclise.