Por vezes eu leio textos que me confirmam este sentimento constante de que a própria humanidade não se conhece. Coisas como The Sneetches do Dr. Seuss ou uma crônica no jornal O Tempo da semana passada. Não estragarei o final para aqueles que não conhecem Dr. Seuss, mas o cronista sugeria que, se forçássemos todos a ficarem nus, ao natural e coisa e tal, seríamos obrigados a nos desprender da ostentação e dos estratos sociais que, segundo ele, são ditados e reforçados pelas nossas pelagens artificiais. Eu não pude deixar de esboçar um sorriso ao ler isto.

Esta é uma lição de moral um tanto famosa e atraente, mas que ignora dois pontos importantes da evolução do ser humano. O primeiro é que ele é um ser social e, portanto, hierárquico. Até o comunismo tem uma figura governamental acima do povo e, no frigir dos ovos, tudo o mais acaba se resumindo nas palavras imortais de George Orwell: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros".

Qualquer tentativa, então, de arrancar a hierarquia da humanidade, bate direto com o segundo ponto: seres humanos são desgraçados de marca maior, e isso vem de berço. Juntando as duas coisas, não é de se espantar que, eliminando-se as marcas artificiais da hierarquia, sejam elas roupas de grife ou estrelas na barriga, tudo o que a antiga classe dominante tem a fazer é estabelecer outra regra igualmente arbitrária, com o risco mínimo de alienar alguns de seus antigos membros ou agregar alguma plebe no novo critério. Somos uma espécie que já escravizou a si própria baseada em um critério tão espúrio quanto a concentração de melanina na pele, o que mais se pode esperar?

Enfim, a lição mais verdadeira – embora bem disfarçada – não está em uma crônica de jornal ou livro1, mas em um desenho animado. Em um episódio de Padrinhos Mágicos, cansado de ser atormentado por seu vizinho de dentes perfeitos, o menino deseja que todos no mundo sejam exatamente iguais, transformando cada pessoa no planeta em uma bolha amorfa e cinza. Mas, no fim, o estúpido vizinho continua um idiota de marca maior, afirmando que ninguém é mais "bolhudo e cinzento" do que ele.

Acho que já deu pra pegar o espírito da coisa.

A nova ordem social agora é óculos redondos acima de óculos quadrados!


Töpo Talpos é blogueiro, cronista e sócio vitalício da Associação Brasileira de Misantropia


1: A César o que é de César, Seuss era autor de livros infantis, então podemos lhe dar o privilégio de não analisar esta questão mais a fundo... ou não.

PS.: se alguém conseguir descobrir o título da crônica e o nome do autor, por favor deixem um comentário e farei a retificação o mais rápido possível.