Diz-se que a originalidade hoje está em falta, mas eu discordo. O que ocorre é que a originalidade sempre esteve em falta, pois por definição o original é escasso, e se não fosse não seria tão apreciado(nem quiçá seria original ser original), pois demanda engendra valor e por aí vai. Mas o caminho da originalidade não é sem armadilhas e pequenos ardis. Vejamos por quê...

Imagine uma fila cheia de gente. Imagine que isto é uma metáfora da vida: todas as pessoas do mundo seguindo uma fila gigantesca que vai do nada a lugar nenhum. Perturbadoramente acurado, não? Desculpe-me, esta não é a questão. A questão aqui é que existem três maneiras de andar nesta fila. Obviamente, pode-se andar a favor da fila. Ou pode-se seguir no sentido contrário, se desviando ou empurrando quem continuar no caminho. E você pode simplesmente virar à direita(ou à esquera) e explorar o espaço bidimensional que te cerca.

O primeiro tipo de pessoa, claro, são aquelas que não exercitam a originalidade. Em muitos casos, nem tentam. Mas acho que não vale a pena, para o escopo deste artigo, comentar sobre estes indivíduos metafóricos.

O segundo tipo exercita uma falsa variedade de originalidade, que é na realidade justamente uma das armadilhas que mencionei. Trata-se daquele que não segue as convenções, mas procura ativamente contrariá-las. O curioso e contraditório é que, mesmo que esta pessoa não esteja simplesmente seguindo as normas pré-estabelecidas – seja explícita ou implicitamente –, suas ações ainda são guiadas pelas mesmas guias. O caminho é o mesmo, apenas o sentido é contrário. E é preciso notar que, embora exista o ar da novidade, é uma novidade um tanto vazia. Às vezes, não é nem boa.

Porque as convenções que governam a criação existem por razões diversas, e elas nem sempre são ruins. Por vezes, as convenções são boas, e ativamente contrariá-las ou leva o sujeito de volta à estaca zero; ou simplesmente não funciona. Principalmente, porque não é suficiente apenas fugir ao convencional, é preciso entender o convencional para reinventá-lo melhor.

E então temos aqueles que seguem o caminho perpendicular. Eles saem completamente do trajeto convencional e procuram seu próprio destino. Talvez chegarão exatamente onde todos vão chegar(imaginemos, aqui, que nossa fila faz curvas, e tomar uma direção perpendicular cria, portanto, um atalho); talvez eles estejam criando um caminho que será seguido por muitos depois(e, na maioria dos casos de sucesso, é isto que acontece). O importante é entender que o terceiro caminho é a originalidade de fato: é o diferente consciente, uma diferença que não se baseia somente em contrariar o que é igual, mas explorar o novo.

Esta é minha visão em originalidade, e porque a boa originalidade se diferencia de uma incessante obsessão por subverter expectativas. Mas é sempre importante lembrar aquilo que é da própria natureza da originalidade: ela é rara e difícil. Na maioria dos casos, acaba-se virando noventa graus demais e se tornando um original excessivo. Antes de mais nada, é preciso entender o processo, e, por incrível que o pareça, aceitar que nem tudo precisa ser mudado.


Korso Asclepius é artista, blogueiro e provavelmente teve a idéia para essa metáfora depois de ler Reinventando os Quadrinhos.