Não vou iniciar nenhum discurso criminalista anti-pirataria. Tampouco vou incentivá-la, glorificandp-a como uma resposta legítima à cobiça exagerada das grandes corporações. Tanto pelo contrário, quero apenas deixar bem claro duas coisas: a primeira, que pirataria, como quer que seja definida, existe; e, segundo, que ambos os lados deveriam levar o assunto mais a sério.

Comecemos definindo o que será considerado ato de pirataria para os fins deste artigo. Tecnicamente, qualifica-se como pirataria legítima o ato de apropriar-se indevidamente da propriedade de outrem e, posteriormente, obter lucro de sua distribuição. Tecnicamente, falsificação não é pirataria, embora seja ato igualmente criminoso, e baixar um filme não é exatamente pirataria, é apenas roubo de propriedade intelectual. E é, tecnicamente, crime, pelo menos neste país. Entretanto, para os fins deste artigo, enquadra como "pirataria" o ato de obter e/ou distribuir cópias ilegais de tais obras. Agora que está tudo bem definido, vamos escolher um lado pra começar.

Todos temos que concordar que o preço cobrado nos cinemas é caro. Por melhor que seja a qualidade do som, e mais limpa e bem isolada acusticamente que seja a sala de projeção, 14 reais a entrada inteira torna difícil ter acesso a todos os filmes na mesma época que saem. Tudo bem, isto também é devido ao "efeito meia-entrada", que acabou por duplicar os preços de entradas para eventos culturais, e agora está quase limitando a meia-entrada a apenas X% da lotação total. Mas não é isso que está sendo discutido aqui. Estamos falando de custo-benefício.

Pra começar, o preço do cinema não inclui a alimentação, se é que se pode chamar pipoca e refrigerante de "alimentação", mas isso são outros quinhentos. O preço do filme cobre apenas gastos com manutenção de local e equipamento, salário de funcionários e, claro, o preço do próprio filme, pago pelo cinema para viabilizar sua exibição. Leve em conta que um filme de sucesso faz, só de bilheteria, dinheiro o bastante para pagar a si próprio e a próxima superprodução em cartaz. Venhamos e convenhamos, há um lucro abusivo aí, e é direto na fonte.

Mas não nos contentemos com apenas um exemplo: a indústria fonográfica também tem suas incongruências. Grande parte do dinheiro arrecadado em vendas oficiais de CDs, pen-drives, et cetera acaba servindo para pagar os honorários da gravadora. Bandas e músicos que gravam suas próprias músicas normalmente conseguem reduzir o preço de venda em até belos 80%. Existe um problema de superfaturação em toda a indústria de produção, sim. Mas, também, pelo outro lado...

Talvez a tecnologia disponível hoje em dia, que permite a distribuição de informação muito rápido, acabou gerando uma cultura dominada pelo princípio de Gerson, segundo o qual é correto levar vantagem. Só que as pessoas não entendem que, a despeito do superávit, o dinheiro gasto na distribuição oficial é o dinheiro que chega ao(s) artista(s) envolvido(s). O camelô não vai pagar os direitos autorais do seu cantor favorito, ou os direitos de distribuição do estúdio que gravou aquele filme bombante. Embora as perdas sejam ridiculamente menores do que os números absurdos divulgados pelas campanhas, existe uma perda aí, e, dependendo dos números reais, o produtor tem todo o direito, sim, de se sentir desmotivado a produzir.

Achei que demoraria mais a chegar em uma conclusão, mas já estamos aqui. O problema tem pelo menos dois lados. Por um lado, o consumidor dá um jeito de se esgueirar das taxas abusivas e comprar seu produto em um revendedor (ilegal) que pode fornecer o produto a um preço contra o qual não se pode competir. Por outro, as produtoras procuram lucros desproporcionais sobre a mão de obra de produção e sua propriedade intelectual. Seja quem for que começou, o outro lado respondeu à altura e começou uma guerra fria, onde cada lado se incrementa, até que um dia alguém vacile...

...ou cheguemos em um acordo. A cultura da pirataria é prejudicial tanto para o autor, que não vê a cor do seu justo dinheiro – produzir não é fácil, gente! –; quanto para o consumidor, que se conforma em adquirir um produto de baixa qualidade – fala sério, DVD gravado no cinema é a pior coisa do mundo! –, só para não pagar mais. Preços justos podem ser negociados, e o caso do Radiohead, já antigo, é um exemplo a ser segudo. Para cada espertinho que simplesmente baixa as músicas e não paga um centavo, há aqueles que valorizam a obra mais do que ela vale. E, se não há colaterais – estúdios, gravadoras, distribuidoras – a quem pagar, apenas os reais interessados lucram nisso. Pior para aqueles que se fossilizarem nos formatos antigos, afinal, a seleção natural não é uma regalia da natureza, apesar do nome.

Pirataria: existe uma saída. Se vamos chegar lá, entretanto, é uma questão de tempo. Muito tempo...

Nota: Estatísticas e números não apresentados com uma boa razão. É difícil achar números não tendenciosos. Além disso, estamos no prazo!