Esta vai ser uma longa introdução para um texto até bastante simples. Vamos começar pela surpresa que é ter eu, o maior praticante de "ócio criativo", dando o pontapé inicial na nossa publicação de textos. Pois é, alguém tinha que começar, e só começa quando inicia. Acho que isso é o de menos.

Segundo, você deve estar pensando "mas, pelos bíceps de Apolo, o que paralelepípedos faz um pretenso artista do seu calibre falar de quadrinhos?" Bom, quadrinhos são arte. Não acredita, vá ler Scott McCloud. Eu espero... ou melhor, não espero, vai demorar muito. Vamos então concordar que quadrinhos são uma forma de arte tão válida quanto qualquer outra e, sem preconceitos, prosseguir neste texto, certo?

Então, prosseguindo, o que são "quadrinhos tradicionais" aqui. Pense em Marvel. DC. Image. Todos aqueles heróis que você pensa quando ouve a palavra "quadrinhos". É disso que falo. E, finalmente, um pouco de história pessoal aqui.

Depois disso, minha leitura de arte sequencial física(i.e., não incluindo webtiras) foi preenchida com mangás(GUNNM, Shaman King, Evangelion e One Piece, principalmente), quadrinhos independentes(notavelmente, Bone e Scott Pilgrim) e alguns clássicos do gênero como The Sandman e Sin City(só alguns). E, se você estiver contando, a série do Scott McCloud Desvendando/Reinventando/Desenhando Quadrinhos. Por alguma razão, não pensei mais em ler quadrinhos tradicionais desde então.

Isso até que li este texto do Kid sobre quadrinhos. Foi quando eu comecei a pensar "espere um pouco. Por que,mesmo eu não leio esse tipo de coisa?" Não é porque eu não tivesse gostado, eu adoro o Homem-Aranha até hoje, e também o Venom(a saga do simbionte é provavelmente a melhor da série). Não é por elitismo também, não tenho nada contra Marvel/DC/Image em geral ou quem as lê. Eu tive de pensar um pouco mais até descobrir a provável razão por trás disso, que na verdade são duas: continuidade e finitude.

Continuidade se refere à maneira como as histórias se seguem umas às outras. Quando um quadrinho tem continuidade, a edição anterior importa aos eventos das edições posteriores. Finitude se refere à história como um todo ter um fim ou não(em oposição ao conceito de sagas, onde cada saga particular tem um fim). Daí eu cheguei à conclusão interessante que separa os quadrinhos de heróis de todo o resto: continuidade forte, mas nenhuma expectativa de fim. Exemplos:

- Bone é uma história coesa e contínua, onde cada edição se segue estreitamente à anterior. Mas tem um final bem definido.

- One Piece é outra história de continuidade forte, onde mesmo detalhes quase insignificantes de 100 edições atrás são importantes(e, felizmente, revisados, porque haja memória para lembrar tudo!), mas como todo mangá tem princípio, meio e fim(planejados, pelo menos; Shaman King foi cancelado antes de terminar mas nunca li um mangá que durasse "para sempre"), e sabemos que em algum ponto do futuro essa história vai ter um final.

- Os gibis da Turma da Mônica não tem praticamente nenhuma continuidade. Ponto.

- Finalmente as HQs tradicionais(usando um exemplo genérico-específico, Homem-Aranha) tem continuidade forte, mas nenuma esperança de fim. Enquanto a série tiver quem escreva e quem leia, a história continua.

Então, qual é a lição aqui? Eu, pessoalmente, não consigo ler quadrinhos que não tem fim, a não ser que seja possível começar ou parar em qualquer lugar. A prospectiva de ter de começar do início e nunca "alcançar" o estado atual da série, ou recorrer a suplementos e resumos para aí sim poder prosseguir a leitura simplesmente não me agrada. Sim, One Piece atualmente conta com mais de 600 capítulos(bote aí 120 edições brasileiras, se é que vão chegar ao Brasil), mas como todo mangá existe a esperança de um final. Mesmo que demore pra ler tudo, você sabe que isso não vai ser um ciclo vicioso.

Enfim, não tenho nada contra os quadrinhos tradicionais e seu modelo infinito e contínuo de storytelling. Se você lê estes quadrinhos e gosta, bom pra você. Eu só achei interessante descobrir porque, misteriosamente, um dia eu dei as costas para o gênero e nunca voltei. E, pelo visto, talvez nunca mais volte. Oh, céus...


Korso Asclepius é artista, blogueiro, crítico e, de vez em quando, adora se sentar e ler uma bela obra de arte sequencial