Realismo fantástico é um dos gêneros mais interessantes de literatura, na medida em que, sendo um ponto médio entre dois outros gêneros bem fundados – obviamente, o realismo e a fantasia –, é preciso sempre medir, consciente ou inconscientemente, a quantidade certa de realidade e fantasia para que o texto não se incline demais para um lado ou para o outro. A mistura, em proporções corretas, se torna um texto sublimemente rechado de elementos aparentemente incompatíveis. E, findo este interlúdio, vamos à análise em si.

Em A Caverna, Saramago narra a história de um oleiro que tenta contornar a situação desagradável de ter sua produção vista como desnecessária pelo grande Centro – um misto de shopping center e condomínio –, e portanto em risco de ter de deixar o negócio. A narrativa segue em ritmo constante, em meio a discussões filosóficas entre pai e filha – e genro – a respeito da natureza humana, alegorias diversas e as digressões costumeiras do autor, até atingir um clímax inesperado e certamente chocante.

Com relação ao formato, o texto é relativamente simples. Só o que pode afastar os novos leitores são a grafia original portuguesa do texto – mantida a desejo do autor –, que contém não apenas vocábulos desconhecidos aos nativos brasileiros, mas também se utiliza de algumas formações gramaticais dadas como arcaicas, tal como a contração de pronomes oblíquos – "deu-mo", "disse-lho", et cetera. Além disso, o estilo simplista, embora atípico, de Saramago, que não se utiliza de sinais de pontuação mais complexos do que vírgulas e pontos, com diálogos que se confundiriam ao restante do texto não fosse pela utilização de iniciais maiúsculas, e a provavelmente já conhecida existência de parágrafos que se estendem por mais de 5 páginas, talvez sejam o bastante para assustar aqueles não familiares como "complicado". Entretanto, deve-se reiterar que, na realidade, este estilo contínuo de escrita faz com que o texto flua de forma natural, por vezes soando mesmo como a fala portuguesa, e após algumas páginas – ou melhor, alguns parágrafos –, acostuma-se com o texto facilmente.

Em seu texto extenso e fluido – e, por vezes, confuso, devido ao estilo atípico de escrita do autor –, Saramago trata, em diálogos e digressões, dos mais variados tópicos a respeito de filosofia, relações humanas e até mesmo alguns palpites a respeito da natureza de outras coisas, tais como cães. Entrementes, o título instigante mantém o leitor na expectativa de uma discussão, seja ela aberta ou sutil, simples ou profunda, em diálogo ou embutida no meio do texto, a respeito da nossa percepção da realidade e demais implicações do conhecido "Mito da Caverna", escrito por Platão. Mas mesmo agarrado à expectativa, em meio a tantas outras alegorias, sonhos e mesmo manifestações literais e físicas no mundo da narrativa, quando a titular caverna finalmente se revela, o leitor não pode deixar de se surpreender, seja pela simplicidade do conceito, ou simplesmente pelo imenso absurdo da situação, que finalmente põe o "fantástico" no realismo fantástico típico de Saramago.

Para aqueles que não foram capazes de adivinhar o final da história, ou para aqueles que não se importam em conhecer o final, mas sim de aproveitar o processo de leitura, recomendo o livro para todos aqueles que gostem de ler, aqueles que já sejam fãs de Saramago, ou mesmo aqueles que ainda estejam pensando em se aventurar pelos caminhos tortuosos da literatura. A Caverna é um livro intrigante e que provavelmente prenderá o leitor do início ao fim, seja pela expectativa de um grande choque no final, ou pelo desenrolar da narrativa que ocorre a despeito de algo à espreita para desestabilizar as concepções acerca do mundo e de si mesmos de todos os envolvidos. Enfim, é definitivamente literatura que vale a pena!