Existem nichos históricos e temáticos da ficção que todos poderiam dizer que já foram mais do que explorados. Épicos medievais com dragões e magos não sobrevivem se não forem especialmente geniais ou clássicos do gênero, e acredito que Dan Brown já gastou até demais suas aventuras turísticas com um mistério como pano de fundo.

A Segunda Guerra mundial é um prato cheio para todo tipo de história real ou não, sejam dramas focados naquela que provavelmente é a maior tragédia da humanidade(falo do Holocausto, obviamente), visões da história sob diferentes pontos de vista, simples histórias de guerra ou mesmo apenas ambientação para algo completamente diferente, como o recente Bastardos Inglórios de Tarantino, que é pura ficção mas não menos impressionante.

E, no meio deste cenário que muitos dirão que já estava gasto antes do final do século XX chegar, A Menina que Roubava Livros de Markus Suzak foi uma obra que tocou meu coração com muita vontade.

A Menina que Roubava Livros - Capa O livro conta a história de vida de uma menina alemã que foi posta em um orfanato pela mãe e adotada por um casal, e daí a história segue contando sua trajetória, das pessoas que conheceu e como passou a adorar livros – a ponto, como o título indica, de roubá-los. E talvez o que há de mais interessante no livro é seu narrador: a própria Morte.

Em sua condição de ser imortal, o narrador retorna e adianta o tempo variadas vezes, e faz divagações em sua própria narrativa. Enfim, existe um sabor todo especial da escolha do narrador – que, a despeito de sua função, realmente se importa com a humanidade – e a história em si já é linda. Definitivamente saborosa.

Neste pano de fundo da expansão nazista pela alemanha e pela europa, assim como a reunião e eventual extermínio dos judeus nos campos de concentração, Liesel Meminger vive intensas relações com os Hubermann, sua família adotiva; Rudy Steiner, amigo na infância e mais tarde um romance velado; a mulher do prefeito; e, talvez o personagem que mais me cativou durante a história toda – embora seja um arquétipo previsível no cenário da história –, o lutador judeu Max, que em seu esconderijo chega a ter sonhos delirantes de lutar contra o próprio Hitler(que não é, a bem dizer, uma luta justa). Personagens intensos, bem escritos, cujas histórias com certeza também tocarão o leitor.

Não tenho muito mais a dizer a partir daqui. É um livro suave, com a quantidade certa de drama e que certamente não explora tanto seu cenário, o que é bom. O avanço do terror da guerra sobre o enredo é sutil e não cansa nem fica no caminho da história, pelo contrário, se funde a ela com perfeição. E, como disse antes, a história é linda, tocante e deliciosa, ótima para se apreciar a qualquer momento. Realmente, um livro de cabeceira.

Enfim, é um ótimo livro e eu o recomendo. Creio que ninguém vai se arrepender.


Korso Asclepius é crítico, blogueiro, artista e pelo visto perdeu até as proparoxítonas de tanta emoção.