Duncton Wood - A clash of good and evil in the kindgom of moles Descrito como "uma luta entre o bem e o mal no reino das toupeiras", Duncton Wood já está em muito atrasado com sua resenha. Vamos aos fatos, entretanto: achar este livro aqui é mais difícil que Watership Down, não só pela falta de um título nacional(o outro pelo menos é conhecido como "A Grande Jornada"), mas também pela total obscuridade do livro em questão. Em miúdos, é quase como Watership, mas com toupeiras, mais sangue, mais magia negra, mais apologia religiosa indefinida e bem menos coelhos. Pensando bem, não é tão assim como Watership Down.

Uma descrição deste tipo, aliás, não faz justiça à obra. Embora pertença ao mesmo sub-gênero(algo como... um "épico antropomórfico"), Ducton Wood é muito mais, digamos, denso do que Watership Down. Mas chega de comparações, vamos ao livro em si.

Duncton Wood conta a história de Bracken e Rebecca, duas toupeiras de Duncton, desde seu nascimento(antes disso, aliás) e até suas mortes(tudo bem, desculpem, deixei escapar!). Mas a história realmente começa... bem, o início do livro é quando Rebecca encontra Bracken em um dia chuvoso perto da Pedra, mas a história realmente começa bem antes do nascimento dos dois, quando o sistema(acostume-se, e o nome dado a um conjunto de tocas que se interligam, formando uma comunidade) de Duncton.

Na verdade, resumir a história de Duncton Wood requer um bocado de background, que seria melhor adquirido lendo o próprio livro(ou melhor, seus dois primeiros capítulos). Além disso, um resumo seria grande demais, visto que o livro em si é enorme. Vamos então aos fatos.

A estrutura de Duncton Wood, no geral, flui muito bem. A história não tem um objetivo inicial definido(diferente de sua continuação, Duncton Quest, um épico com estrutura mais clássica), mas o desenrolar e coeso e acompanha as reações dos personagens. E o que é mais incrível e fascinante no livro é que muito acontece em muito pouco tempo. Quando você acha que o grande vilão da história foi derrotado e o herói vai retornar e encontrar sua amada... bem, aí você percebe que não passou nem de um quarto da história, ou seja, nem tudo é o que parece. Em outras palavras: a história é longa e muito densa. Uma história deliciosa, enfim.

E uma história não pode ser de apreciável gosto sem personagens igualmente deliciosos. Desde os protagonistas Bracken e Rebecca, aos vilões Mandrake e Rune, o elenco de apoio composto(entre muitos) de Mekkins, Boswell, Rose, Mullion... tantos e tantos que nem vão ganhar uma pequena frase de apresentação porque caso contrário este parágrafo já ficará grande demais. São muitos personagens, a maioria dos quais é tão bem construída que vê-los sofrer sua inevitável morte é realmente doloroso. Mortes, sim, porque, como Watership Down, Duncton Wood não é um livro leve. Não se passam três capítulos sem que alguém suje as garras de sangue, e muitos se vão em cenas tão dramáticas que eu não me surpreenderia de ouvir alguém dizer que chorou pelo fim de um vilão(acho que teria chorado, se não estivesse lendo no ônibus).

E por trás de personagens e história, Horwood, assim como todo bom escritor de épicos antropomórficos, cria uma sociedade estruturada baseada na vida de mamíferos insetívoros. Toupeiras têm seus próprios rituais, regras sociais e uma religião vaga baseada em monumentos de pedra(menires) e conceitos como silêncio, som e, claro, amor, sem falar em coleções de livros escritos em pedras e cascas de árvore com uma escrita própria. Como é de se esperar vindo de uma sociedade fictícia criada na mente de um autor humano, as toupeiras também têm preconceitos(toupeiras de pasto são referidas, por boa parte do livro, como uma espécie de povo selvagem) e praticam o mal como ninguém(Rune é praticamente o mal em forma de toupeira; por isso é tão bom saber o que acontece a ele no final do livro). Mas, na visão geral, seus modos são animais. Toupeiras ainda são toupeiras, embora tenham mente humana.

Enfim... Duncton Wood é um livro onde tudo é bem descrito, personagens têm histórias e vidas próprias, e a vida das toupeiras tem uma organização social fascinante. Seu mal talvez seja... bem, ser um livro sobre toupeiras. Histórias incomuns tendem a ter sucesso ínfimo, mesmo que sejam ótimas, a não ser que tenham tido a sorte que teve Owls of Ga'Hoole, de se tornar um filme de sucesso no século XXI, quando inevitavelmente o sucesso do filme seria traduzido em um sucesso maior para o livro.

Mas isso não importa. Duncton Wood(e sua dupla trilogia) é uma obra incrível como é. E se mais pessoas se interessarem por comprar um livro inglês que só será encontrado em sebos internacionais... bem, eu diria que isto me faria orgulhoso.


Korso Asclepius é blogueiro, artista, crítico e começará a mobilizar o lobby das toupeiras para conseguir uma adaptação de Duncton Wood para até 2012