Sim, esta é uma resenha de um livro que não será feita pelo Korso. O motivo é que acho que ele se perderia demais nos méritos literários e subtextos sutis e perder alguns pontos que acho que merecem ser ditos. Por exemplo, que Holden Caufield é o primeiro narrador que eu tive vontade de socar no meio da cara.

Esta não é a capa original, mas é a aquela de que eu mais gostei, então tá valendo! Mas vamos por partes: peguei O Apanhador no Campo de Centeio numa segunda-feira e terminei em uma sexta-feira então, vá por mim, se você não quer se arriscar com um livro enorme, esta é uma boa opção. O livro não é complicado e, só pra te adiantar, não tem nenhum campo de centeio. Digo isso porque eu li este livro na estranha esperança de que houvesse um verdadeiro campo de centeio com um apanhador nele, mas isto na verdade é uma metáfora. E, sendo sincero, não sei como exatamente esta idéia me atraiu, acho que eu gosto de realismo mágico. Mas vamos chegar neste ponto daqui a pouco.

Resumo da história, Holden é um rapaz de 17 anos contando uma história que lhe ocorreu aos 16 anos, quando ele foi expulso do colégio interno que frequentava e resolveu sair de lá antes da data prevista. Sem poder voltar para casa antes de seus pais saberem de sua expulsão e deixar o caso "amaciar", ele passa algumas noites e dias perambulando por Nova York*, tenta emplacar algo com algumas mulheres e não consegue, leva uma surra de um cafetão por uma noite de sexo que ele nem fez, marca um encontro com uma "quase" ex-namorada(a questão que me confunde aqui é se ela sequer foi namorada, de fato) e resolve visitar sua irmã sem que seus pais saibam. Tudo isto enquanto expõe ao leitor, como todo bom narrador em primeira pessoa, suas visões do mundo. Que, para um certo desgosto meu, são bem condizentes com sua idade... mas voltemos ao enredo. Perto do fim, ele resolve ir embora, mas muda de idéia porque sua irmã fazia questão de fugir junto dele, e ele finalmente tem um colapso nervoso. Como o campo de centeio entra na história, eu vou deixar pra mais pra frente um pouquinho.

De modo geral, não há nada que realmente chame a atenção na história – bem, vou admitir que a primeira noite é bem tensa, mas depois disso o clima se acalma bastante –, mas acho que o que realmente importava no livro não era bem a história, mas o narrador. E, como eu deixei bem claro, ele é uma mala. Serei justo, ele melhora bastante até o final, mas há um grande paradoxo: o problema todo é que ele é um adolescente muito bem escrito. Em linhas gerais, ele é chato. Sendo mais específico, ele é aparentemente incapaz de mencionar qualquer coisa sem apontar algum defeito – mesmo coisas que ele aprecia, sempre tem um "mas" –, e não se cansa de racionalizar e se distanciar dos defeitos e coisas que em geral ele detesta em outras pessoas. De fato, quando sua irmã pede que ele diga alguma coisa de que goste, sua hesitação é reveladora.

Mas seria um livro que eu provavelmente teria apreciado horrores se eu o tivesse lido há uns seis anos atrás. Holden é o adolescente arquetípico, totalmente seguro de que o mundo está contra ele e que detém um conhecimento superior que todo o resto desconhece. E, embora eu deva parabéns a Salinger por ter conseguido escrever um personagem tão convincente, em algum ponto isto se torna um leve incômodo. E, sem mais delongas, o titular apanhador.

No ponto em que Holden resolve fazer uma visita à irmã – e, por sorte, os pais não estão em casa –, ela lhe pergunta do que ele realmente gosta e o que ele gostaria de ser. A resposta de Holden é um tanto divertida e enigmática, além de se basear numa interpretação completamente errada de uma música antiga chamada Commin Thru The Rhye. Ele imagina um campo de centeio, com um buraco enorme escondido no meio da plantação, e um bando de crianças brincando inconsequentemente ao redor. O "apanhador", portanto, é uma pessoa encarregada de evitar que as crianças caiam no buraco. Uma metáfora incrível, na realidade, onde o buraco representa a maturidade e a perda da inocência. Mais tarde ele tem a oportunidade de desempenhar este papel em uma cruzada pessoal contra pichações anônimas com palavrões em locais públicos. Ironicamente, o palavrão em questão(dica: é provavelmente o mais conhecido da língua inglesa) foi o que criou toda a controvérsia sobre o livro, mas ele não é realmente usado, apenas citado. E, para controvérsia mesmo, não é preciso ir mais longe do que o quarto ou quinto capítulo, no qual aparece uma prostituta juvenil. Em todo modo, a metáfora se torna incrivelmente irônica e daria um ótimo assunto para um texto sobre guardiães da mora pelo Töpo. Mas vamos concluir isto aqui logo de uma vez.

O livro é bom. Realmente é. Embora a história é quase entediante, o conteúdo por trás dela é valioso. E, sobretudo, o narrador é fantástico. Uma mala, mas uma mala da melhor qualidade, digamos assim. Talvez meu erro tenha sido só pegar este livro depois de amadurecer além de seu narrador. E, ademais, a irmã de Holden(cujo nome eu custei a lembrar: Phoebe!) compensa bastante os defeitos do irmão. É difícil saber se isto é devido à falibilidade do narrador – que, de fato, adora a menina –, mas se for este o caso, é mais uma prova do gênio de Salinger.

Portanto: pegue, leia, aproveite. Não é um épico, nem sequer tem um campo de centeio, mas é um clássico.


Bruno Guedes é blogueiro, universitário(ainda!) e não vai se desculpar pela falta de posts, porque isso só consome mais tempo que poderia ser usado escrevendo mais posts!


* Não venho nehum motivo porque não poderia traduzir somente o "New" de "New York"