Watership Down, por Richard Adams Se você não conhece esta obra prima de Richard Adams(nenhuma relação com Douglas Adams, suponho), você não faz idéia de como ele é bom. Um dos maiores desafios de todo consumidor de arte/cultura é tentar responder à famosa e exigente pergunta "É sobre o quê?" Se você me perguntasse "Esse tal de Watership Down, é sobre o quê?", eu diria "Coelhos. É sobre coelhos." E não estaria nem um pouco longe da verdade, embora parecesse estar longe da minha sanidade.

Watership Down, de fato, é a história de um grupo de coelhos que abandona sua coelheira(na falta de um termo melhor para "warren") para procurar um novo lugar para morar, visto que sua antiga morada está condenada, ou assim diz Fiver, o jovem profeta do grupo. Daí pra frente a história menciona as dificuldades pelas quais eles passam, os locais que visitam, até chegar a Watership Down, onde eles criam uma grande toca e uma nova etapa da história se inicia(sim, a história segue além).

O que não se menciona, ou não se procura saber, é que a despeito de seus personagens aparentemente inocentes, a história é profunda, complexa e sombria. Sim, eu disse sombria. E tem bastante sangue também. Isso: sangue. Luta, violência e sangue. Ênfase no sangue.

Watership Down não é, nem de longe, o livro de fábula que parece ser. Aliás, talvez seja pura ironia que Adams insere, de tantos em tantos capítulos, uma história fabulosa estrelando El-ahrairah, o Príncipe dos Coelhos. Estas histórias são apenas uma parte da diversa cultura "lapina" que Adams apresenta na obra, que inclui uma mitologia e mesmo uma língua própria, que é usada de forma bastante clara ao leitor; depois de alguns capítulos, você já sabe muito bem o que hraka significa.

E, também muito diferente do que aparenta, Adams comunica mensagens de significado profundo em sua narrativa. Desde a batida mensagem de consciência ambiental praticamente obrigatória em toda história envolvendo animais e humanos, até uma metáfora de fascismo, uma crítica à conformidade e uma metáfora extraordinária às armas de destruição em massa.

Outro aspecto fascinante da obra é o modo como são tratados os personagens. A antropomorfização dos animais em Watership Down não ultrapassa o dom da fala e uma cultura rudimentar baseada em mitos e conhecimento hereditário. Os coelhos de Adams têm problemas em imaginar conceitos como "barco" ou "mar", visto que nunca precisaram aplicá-los. As anomalias de comportamento visto em algumas ocasiões durante a narrativa são, invariavelmente, causadas pelo homem, e mesmo a interação entre espécies diferentes é um fato anormal, agravado pela existência de diversas formas de "linguagem animal". Em suma, Adams criou um universo profundo onde qualquer um outro teria caído no clichê da "comunidade animal".

Gostaria de não terminar esta resenha apenas com elogios, mas infelizmente não consigo enxergar falhas crassas nesta obra de Adams. O péssimo costume de todo escritor épico de se concentrar demais nas descrições de locais, e a confusão que às vezes causa a riqueza da flora escolhida por ele para compor seu cenário – sobretudo quando se lê o texto na língua original, e haja paciência para consultar um dicionário toda vez que um nome de planta é citado – são na realidade algo que enriquece o texto além da história. Pois se toda narrativa é composta de pergonsagens, enredo e cenário, é dever do autor estabelecer o cenário como preferir. E, obviamente, a maior falha de toda boa história é que uma hora ela acaba, nos deixando uma sensação que é um misto de boa, pois a história acaba antes que comece a piorar, mas também ruim, pois fica um vazio no lugar onde a história ocupava em nossa mente.


Em sua introdução, Adams conta que enfrentou um problma constante para publicar sua história. Nenhum editor queria se arriscar com seu livro, pois a história era complicada demais para crianças, e o publico juvenil não iria ler uma históris de "coelhinhos". Mas não se deixe enganar pela promessa de uma "história de coelhos fofinhos", Watership Down está muito mais próximo de Animal Farm do que de Peter Rabbit.