De tempos em tempos crimes acontecem. Crimes de grau leve, médio e hediondo. Mas nada mais que crimes. A natureza humana é falha, a mente humana também, e por vezes também as leis são arbitrárias. Além disso, à medida que a moralidade humana se desenvolve, costumes passam a ser rejeitados e vice-versa, e também a idéia do que é hediondo varia com o tempo. Existem, até mesmo, crimes reconhecidos universalmente.

Entretanto, na singela opinião dos autores deste site, nada – repetindo: nada – justifica o desejo de sangue do ser humano. Existe uma explicação? Existe, e ela é relativamente simples. O ser humano só pôde sobreviver até onde sobreviveu graças a um instinto assassino que garantiu sua sobrevivência e supremacia sobre espécies muito maiores(como o megatério) e/ou mais fortes(como o famoso tigre-dentes-de-sabre). O desenvolvimento bélico, aliado à sanguinolência natural, foi o que salvou a espécie humana da extinção, ao contrário das outras espécies que foram extintas por estes mesmos motivos. Sim, a natureza é incrivelmente irônica, perguntem ao hipopótamo.

Enfim, com o surgimento das leis e da moral, e do instinto natural de se proteger uns dos outros, o ser humano foi impedido de saciar sua vontade natural por sangue fresco. Apenas criminosos, loucos e soldados podem se dar ao luxo de tal regalo, e como criminosos e loucos normalmente têm fins nada agradáveis e soldados correm o imenso risco de serem usado para saciar este desejo carnal de outra pessoa, normalmente cidadãos de bem não se deixam levar por este instinto, assim como muitos outros. O resultado de toda essa moralidade? Eu mostro:

do fundo do meu coração,nunca desejei a morte de ninguem,assim como desejo profundamente a morte de Guillermo habucuc vargas,nem o demonio pode ser tão covarde e sem escrupulos....deixar ele morrer de fome e sede e pouco,consigo em apenas 1 minuto pensar em varias fomas de mortes bem dolorosos.....assim não sei identificar a difernça entre quem o fez,e quem o assiste sem fazer nada.....Este homem guillhermo nao pode ser comparado nem aos cães q ele mata covardemente e sim a um monstro q merrece ser esterminado da face da terra,estou profundamente chocada e espero tenha acabado e esse monstro que é pior doque um canser para o mundo seja cruelmente pudido....Antes eu acreditava não ser capas de matar mas se encontro com esse desgraçado naminha frete,eu certamente o mataria e não ligaria de ir presa pelo resto da minha vida....Pois se essa crueldade continuar vou ter certeza a o mundo esta no fim e que o homem se transformou na coisa mais repulciva ja vista

Ignore os erros de gramática e ortografia, e o fato de que esta pessoa deixou esta pérola sob um texto que... bem, leiam o texto, ele diz por si só. Atenham-se aos trechos em negrito – destaque deste autor, o comentário é na verdade todo em texto simples – e percebam o tema deste tópico. Veja bem, a opinião da senhorita autora do comentário acima não está sendo rejeitada, e embora não concorde com suas palavras em nada, defendo até a morte o direito de dizê-las. Mas a questão é...

Quem é você, senhorita Elaine, para afirmar que alguém merece morrer pelo que quer que seja?

Não é de forma alguma um fato isolado. GHV foi ameaçado e dito merecedor de morte pelos quatro cantos da Internet, e o que mais se fala – e eu ouvi pessoalmente de alguém – sobre o pai e a madrasta de Isabella Nardoni é que eles merecem morrer. Mas, pergunto, eu, quem somos nós para dizer tal coisa? Somos melhores que alguém que supostamente merece morrer em quê? Somos, por acaso, perfeitos e oniscientes para definir quem merece e quem não merece morrer? Não seríamos, muito pelo contrário, seres falhos, guiados por vieses e opiniões próprias e muitas vezes divergentes não só da maioria mas também daquilo que é estabelecido?

Além disso, não acredito na pena de morte. Por duas razões: uma, porque a morte, para mim, não é punição de forma alguma. Não, não acredito no Inferno ou coisa do tipo, e de mais a mais ninguém tem real certeza se é verdade. Pois então, o sujeito morre e... acabou. Ele não vai ter que viver com a culpa que, pelo menos, deveria estar sentindo. E segunda, porque é irrevogável. E não importa o quanto pareça óbvio, o quanto estejamos certos e tenhamos confiança nas evidências que apontam para a culpa, podemos estar errados. E aí? Mesmo se o cara estiver preso no Chateau dIff, tira-se o sujeito de lá. Mas e se ele estiver morto? Como se faz?

Mas também: eu sinceramente não consigo entender, como tantas pessoas que admiram o exemplo de gente maravilhosa que nos ensina que a violência e a brutalidade nunca nos levarão a lugar nenhum, e como exemplo óbvio cito Jesus Cristo – que, independente de ter ou não dito o que dizem que disse, nos inspira profundamente com sabedoria –, mas ignoram tais palavras no ato quando por algum motivo idiota qualquer se sentem "ultrajados" ou "enojados" e saem a condenar a todos. Sendo sincero, acho mais válida a teoria de Sweeney Todd, de que por um motivo ou por outro todos nós merecemos morrer. É a velha história dos dois potes: cada um de nós carrega dois potes presos ao ombro. À frente, nossas virtudes; às costas, nossos defeitos. E creio que vocês já conhecem a moral da história. E além disso, o velho dito: "Quando se aponta um dedo, outros três apontam pra você".

Para fechar este texto, as palavras que Tolkien empresta a seu personagem Gandalf, em A Sociedade do Anel, quando Frodo lhe pegunta porque Bilbo deixou Gollum viver, sendo ele(Gollum, não Bilbo) o ser desprezível que é:

It was pity that stayed Bilbo’s hand. Some that live deserve death. Many that die deserve life. Can you give that to them? Do not be too eager to deal out death and judgment. Even the very wise cannot see all ends. All you have to decide is what to do with the time that is given to you.

E, agora, podem começar o festim.