Gosto de títulos simples tanto quando os gosto criativos. Este título está aqui justamente pelo que deve: explicar justamente a estrutura deste texto. Falemos de sarcamos, definamos ironia, e relacionemos então tudo com o texto. Mais simples, impossível.

Sarcasmo é uma figura de linguagem que consiste em inserir um tom depreciativo em uma frase, de forma que seu sentido seja implicitamente deturpado, transformando seu significado em seu oposto polar, ou distorcido. De forma geral, o sarcasmo como um hábito é mal visto socialmente, e normalmente associado a negativismo. Segundo Oscar Wilde, "o sarcasmo é a forma mais baixa de inteligência". É um conceito facilmente identificável, quando se dispões de seus traços indicativos – inflexão, expressão facial e corporal, et coetrea.

Ironia, por outro lado, é um conceito complicado e demasiado confundido e mal usado. Antes de mais nada, a canção Ironic da Alanis Morisette não possui exemplos de ironia, salvo talvez um ou dois. Trata-se de um livro-texto do mais completo azar e desgraça generalizada, entretanto. Ironia, entretanto, só se pode definir como uma de várias variedades. A forma mais "popular" de ironia é a dramática, em que uma situação é irônica devido a fatores descohecidos para os envolvidos, conhecidos apenas pelos espectadores. A ironia "pura", caracterizada como "verbal", consiste em dizer o contrário do que se diz, sem nenhuma inflexão ou dica, senão uma intuição extraordinária – ou algum conhecimento prévio a respeito do autor – para perceber este caráter sem que haja nenhum fator levemente óbvio, que é o que diferencia a ironia do sarcasmo. Os outros tipos não fogem muito desta definição, com exceção da ironia socrática, que é, na realidade, um artifício de argumentação. Voltemos à ironia convencional e sarcasmo.

O problema sério que envolve ironia, sarcasmo e texto é que, simplesmente, é impossível ter sarcasmo em texto. Na realidade, não, mas toda forma de sarcasmo em formato textual parece barata e imbecil àqueles que a percebem. Para criar a ilusão de uma inflexão sarcástica, pode-se:

  • Destacar o texto em negrito ou itálico. Ou ambos;
  • Utilizar emoticons, sobretudo as variantes ";)" (piscadela) e ":P" (língua de fora);
  • Demarcar o texto com as imaginárias tags <ironia></ironia>;
  • Dizer para seu leitor que está sendo sarcástico logo depois.

Quase todas as opções não são usadas, entretanto, por razões de bom gosto. Indicar sarcasmo é uma atitude normalmente encarada como um insulto à inteligência do leitor, e portanto um gesto em profundo desuso, com exceção da variante mais discreta, que é a de marcar a inflexão via formatação especial de texto. O que, entretanto, isso tudo quer dizer? Quer dizer que o texto, como forma de expressão, é naturalmente irônico, a não ser quando sarcástico. Vamos rebobinar e concluir com clareza, sim?

O sarcasmo se difere da ironia no sentido em que denota sua presença de forma perceptível, ou pelo menos quase. É a diferença entre dizer que uma piada absurdamente sem graça é "muito engraçada" e "muito engraçada". A inflexão implícita faz toda a diferença, e no texto não existe muito de tal coisa no texto escrito, que dirá na internet, tornando todo texto sarcástico na realidade irônico, aumentando ainda mais a confusão semântica de ironia e sarcasmo. E, por definição, a ironia é algo difícil de se captar, e está absurdamente propensa a ser confundida e gerar comentários equivocados por parte dos interlocutores.

Ou seja: não reclame se seus leitores não captaram a sua ironia. Isso faz parte do pacote. Mas se você está indicando o sarcasmo em letras flamejantes de quatro metros de altura, bem... está mais do que na hora de verificar se há algo de errado com seu público alvo.