Caramba, há quanto tempo que eu não mando uma resenha de jogo em Flash, hein? E não é por falta de jogos bons, sempre tem uns aqui e ali... mas essa resenha de hoje não é nem tanto pela resenha, mas por um comentário sobre uma atual tendência na indústria de jogos casuais. Entre tantos gêneros, destacam-se alguns com grande frequência e/ou notoriedade. Os Tower Defenses, sempre populares e instigantes, cada um com suas características definidoras são de longe os mais famosos e comuns. O assunto de hoje, entretanto, é um gênero que nasceu não no meio Flash, mas em um console. É o que eu chamo de "Puzzle Pós-Modernos".

Portal foi, senão o primeiro, o mais marcante deste gênero. Não só é um jogo do gênero de quebra-cabeça – que, daqui pra frente, vou chamar de puzzle, não só porque é mais curto, mas porque eu curto o som da palavra ;) – em primeira pessoa, um caso raríssimo, mas também por sua história. O elemento mais marcante e memorável é seu narrador e ajudante, um computador-guia denominado GLaDOS que, ao mesmo tempo que guia o jogador na experiência marailhosa que é Portal, também deixa escapar frases irônicas e alguns trechos perturbadores da história por trás do jogo.

Por seu sucesso e notoriedade, Portal abriu caminho para um novo gênero de puzzles. Este gênero é marcado por ter sempre um personagem jogador de caráter imersivo; mecânica de jogo instigante e baseada em princípios que desdobram a realidade; e um personagem narrador sardônico, que deixa transparecer um certo prazer no seu fracasso e perdição. SHIFT, que já foi resenhado neste mesmo site e conta com duas sequências, é um exemplo claro deste gênero. Outro bastante interessante é Time Fcuk.

Time Fcuk: Clique aqui para jogar O título quase intraduzível é algo como "Suruba Temporal"(perceba que "Fcuk" é uma clara subversão daquela linda palavra inglesa com "F"), título que com certeza me renderá anúncios embaraçosos no AdSense... Enfim, o jogo começa quando seu eu de 20 minutos à frente te chama para uma aventura dentro de uma estranha caixa. Daí as coisas ficam muito estranhas, a música bizarra do jogo não ajuda em nada a melhorar o clima, e seu narrador companheiro só torna as coisas piores. Então, vejamos: narrador sardônico, personagem principal sempre referido como "você"... falta uma mecânica de jogo instigante, certo? Pois então, preparem-se... camadas.

O jogo é feito em camadas, e o personagem principal viaja por estas camadas, tornando o que era apenas pano de fundo em plataforma e podendo até mesmo trazer objetos com ele. Este é o princípio que o torna, então, um Puzzle Pós-Moderno. E, caso haja alguma dúvida, a história que vai se contando pelo jogo é um tanto... arrepiante. Em algum ponto do jogo você desenvolve um tumor chamado "Steve", e seu colega narrador parece estar perdido no tempo-espaço e vendo vultos que passam... ou seria, na verdade, você, vendo seu próprio eu do futuro? Não sei, a coisa toda é confusa de propósito, e o final é... jogue, não vai te tomar muito tempo, e será interessante.

O jogo em si tem alguns defeitos... os gráficos são propositadamente primários, e a música é propositadamente perturbadora. Isto não é um elemento negativo per se, visto que, se é pelo potencial artístico, então tá valendo. O que mais me incomoda é que o jogo é curto demais, e não muito desafiador. Talvez seja este mesmo o objetivo, afinal, a esmagadora maioria dos jogos em Flash são ditos casuais, portanto não podem demandar tempo demais do jogador. Mas poderia ser mais desafiador, com certeza. Por outro lado, o clima de anomalia temporal foi bem escrito e comunicado pela presença perturbadora do nosso companheiro temporal, e o jogo tem uma história decente.

Vale a pena ser jogado. Time Fcuk é um exemplo primo deste novo gênero de puzzles, e, embora não seja original em sua execução, é original como jogo. Há algo de definitivamente perturbador neste pequeno personagem cabeçudo e preto, e as telas com aparência de "fora de sintonia" entre cada fase não ajuda muito a acalmar. Enfim, é um jogo que pode ou não ser levado a sério, sem muito prejuízo.

Mas, para um jogo perturbador por natureza, recomendo Eversion. Não se engane, essa pequena flor com pés vai te levar a lugares nunca antes imaginados...