Dia desses eu ouvi na chamada do Jornal Hoje: "Cientista afirma que pode existir vida fora da terra". Ou algo assim. Acho que tinha mais certeza na frase, mas enfim. Eu me perguntei se isso era uma notícia competente...

Veja bem, existe uma pequena confusão entre três conceitos. Antes de mais nada, "vida fora da Terra". Vida é aquele tipo de coisa que todo mundo sabe o que é, mas ninguém sabe definir direito(tanto que não se sabe ao certo se vírus são vivos ou não). Vida é um conceito que pode ser muito amplo, se sua mente permitir o bastante. Vida como conhecemos depende de água, sim, mas vida como não conhecemos pode ser baseada em silício e depender de ácido sulfúrico para a sobrevivência. Ou talvez formas de vida baseadas em enxofre, em algum mundo distante e ainda em estágio infantil e imprevisível. Ou, talvez ainda, vida no vácuo. Se você restringir o conceito de vida a alguns elementos básicos – reprodução, metabolismo, resposta a estímulos e homeostase –, e considerar que a vida é resultado puramente de uma série de fatores reproduzíveis, existir formas de vida em apenas um lugar nesse universo enorme de vasto é praticamente impossível. Seria, mais ou menos, como observar um copo de água e dizer "não há peixes aqui, logo não é possível haver peixes em nenhum corpo de água".

Outra coisa é "vida inteligente fora da Terra", que é justamente o que projetos como o SETI procuram, e de que trata o paradoxo de Fermi. Não há dúvidas de que civilizações extraterrestres devem existir em algum planeta distante, mas o grande problema é a distância. Além do sistema solar, a estrela mais próxima se encontra a uma distância tão enorme que qualquer sinal de rádio leva centenas de milhares de anos para atingi-la, e o mesmo vale para a volta. O que nos leva de volta ao paradoxo de Fermi: civilizações alieníngenas provavelmente existem, mas o tempo gasto por qualquer sinal enviado de uma destas civilizações para qualquer outra – a nossa, inclusive – é tão incrivelmente grande que, provavelmente, elas não podem existir ao mesmo tempo.

Mas até agora estamos falando de especulação plausível. O grande problema são OVNIs.

OVNIs/UFOs são, a rigor, qualquer objeto não identificado que é detectado no céu, desde pássaros até aeronaves que não deveriam estar onde deviam. Mas com o crescimento da influência da ficção científica na cultura popular, a idéia de que OVNI = disco voador = veículo extraterrestre se tornou grandemente difundida, e não poderia estar mais longe de qualquer verdade.

Não que não fosse incrível se seres extraterrestres com um conhecimento científico tão avançado que fossem capazes de construir espaçonaves capazes de viajar para nosso planeta seja lá de que confim esquecido do universo venham e presumivelmente fazer outra viagem em intervalos tão pequenos quanto aparentam. Mas não dá. Não é o caso de simplesmente ver para crer, é o caso de fazer sentido. Na soma das evidências, tudo o que há é uma bagunça que exige mais credulidade do que eu planejo dispender no assunto.

Mas enfim... a notícia de que há vida fora do nosso planeta é quase espúria, pois é fato quase óbvio. Mais incrível seria a prova de que somos o único planeta abençoado com vida. A existência de civilizações além da nossa, talvez mais avançados em tantos aspectos, ou ainda engatinhando na evolução das ferramentas, também não deve ser surpresa, pois em um universo vasto nada mais normal do que toda probabilidade impossível se aproximar da certeza quanto maior é sua área de observação. Mas a notícia mais empolgante, e que provavelmente pula às mentes daqueles que ouvem a combinação de "vida" e "extraterrestre" ainda está imersa em uma confusão de relatos anedóticos e explicações mal explicadas que poderiam ser facilmente melhor entendidas como fenômenos tão menos impressionantes.

Pelo menos por ora.


T.P. é estudante, cientistas em treinamento, blogueiro e andou lendo muito "O Mundo Assombrado pelos Demônios"